UFRJ/HUCFF - Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ) — Prova 2024
Analise as afirmativas a seguir sobre pancreatite crônica: I. O percentual de pacientes que desenvolve diabetes mellitus (DM) é muito pequeno (<10%). II. A pancreatite autoimune tipo 1 é a manifestação pancreática da doença mediada por imunoglobulina G4. III. O principal objetivo no tratamento da pancreatite crônica é atenuar os sintomas e remoção de fatores predisponentes. Pode-se afirmar que está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s):
Pancreatite Autoimune Tipo 1 = Manifestação pancreática da Doença por IgG4.
A pancreatite crônica é uma doença fibroinflamatória progressiva que leva à perda das funções exócrina (esteatorreia) e endócrina (diabetes tipo 3c), sendo o controle de sintomas e a cessação de etilismo/tabagismo os pilares do tratamento.
A pancreatite crônica representa um desafio clínico devido à sua natureza irreversível e progressiva. A etiologia mais comum é o consumo prolongado de álcool, mas causas genéticas, obstrutivas e autoimunes devem ser investigadas. A fisiopatologia envolve a ativação de células estreladas pancreáticas, resultando em deposição excessiva de colágeno e destruição do parênquima funcional. A pancreatite autoimune tipo 1 destaca-se como uma entidade distinta, sendo fundamental o seu reconhecimento para evitar cirurgias desnecessárias (como a cirurgia de Whipple) em casos que responderiam ao uso de prednisona. O manejo da pancreatite crônica 'clássica' exige uma abordagem multidisciplinar, focada na qualidade de vida, controle da dor crônica e suporte nutricional, visto que a má absorção de vitaminas lipossolúveis e a desnutrição proteico-calórica são frequentes.
Diferente do que se possa pensar, o diabetes mellitus (classificado como Tipo 3c ou pancreatogênico) é uma complicação muito frequente na pancreatite crônica, especialmente em fases avançadas. A prevalência aumenta com o tempo de doença, podendo atingir mais de 50% dos pacientes após 10 a 15 anos do diagnóstico. Ele ocorre devido à destruição progressiva das ilhotas de Langerhans pela fibrose pancreática. Esse tipo de diabetes é particularmente difícil de manejar ('diabetes instável'), pois há perda não apenas da insulina, mas também do glucagon (células alfa), aumentando o risco de hipoglicemias graves induzidas pela terapia insulínica.
A pancreatite autoimune (PAI) tipo 1 é a manifestação pancreática de uma condição sistêmica conhecida como Doença Relacionada à Imunoglobulina G4 (IgG4-RD). Caracteriza-se histologicamente por um infiltrado linfoplasmocitário denso, fibrose estoriforme e flebite obliterante. Clinicamente, manifesta-se frequentemente como icterícia obstrutiva indolor e uma massa pancreática que pode mimetizar adenocarcinoma de pâncreas (pâncreas em 'salsicha' na TC). O diagnóstico é reforçado por níveis séricos elevados de IgG4 e uma resposta dramática à corticoterapia, que é o tratamento de primeira linha.
O tratamento da pancreatite crônica é focado em quatro pilares: 1) Modificação do estilo de vida, com cessação absoluta do etilismo e tabagismo para retardar a progressão da fibrose; 2) Controle da dor, utilizando uma escada analgésica que pode incluir enzimas pancreáticas (para feedback negativo da CCK), antioxidantes e, em casos selecionados, procedimentos endoscópicos ou cirúrgicos; 3) Tratamento da insuficiência exócrina com reposição de enzimas pancreáticas para tratar a esteatorreia e má absorção; e 4) Manejo das complicações endócrinas (diabetes) e estruturais (pseudocistos, estenoses biliares).
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