HOB - Hospital Oftalmológico de Brasília (DF) — Prova 2022
Uma paciente de 37 anos de idade apresenta dor abdominal de forte intensidade em região epigástrica, em hipocôndrio direito e dorso há um dia, acompanhada de náuseas e vômitos. Nega episódios anteriores. Ao exame, encontrava-se desidratada ++/4+, com pulso de 112 bpm e PA = 130 mmHg X 80 mmHg. Verificaram-se abdome globoso, flácido, pouco doloroso à palpação em epigástrio e Murphy negativo, com descompressão brusca negativa. Os exames iniciais mostram Hb = 14,7 g/dL, leucócitos 14.760/mm³, e creatinina = 1,6 mg/dL, amilase = 870 UI e bilirrubinas totais = 2,3 mg/dL.Considerando esse caso clínico, julgue o item.O emprego de antibióticos de amplo espectro está bem indicado nesse caso.
Pancreatite aguda → Antibiótico apenas se infecção confirmada ou suspeita clínica forte (necrose infectada).
O uso rotineiro de antibióticos profiláticos na pancreatite aguda, mesmo em casos graves ou com necrose estéril, não reduz mortalidade e não é recomendado pelas diretrizes atuais.
A pancreatite aguda é uma condição inflamatória com espectro clínico variável. A fase inicial é marcada pela síndrome de resposta inflamatória sistêmica (SIRS) mediada por citocinas, e não por infecção bacteriana. Portanto, o uso de antibióticos precocemente não ataca a causa da disfunção orgânica inicial. A necrose pancreática ocorre em cerca de 20% dos pacientes, e sua infecção é uma complicação tardia (geralmente após 14 dias). O manejo foca em hidratação agressiva precoce, analgesia e suporte nutricional (preferencialmente enteral). A indicação de antibióticos deve ser criteriosa para evitar resistência bacteriana e infecções fúngicas oportunistas. No caso clínico apresentado, apesar da leucocitose e alteração de creatinina, não há evidência de infecção que justifique o uso de antimicrobianos de amplo espectro no primeiro dia de dor.
A antibioticoterapia deve ser reservada para casos de infecção confirmada ou suspeita clínica robusta, como necrose pancreática infectada (geralmente após a segunda semana de evolução), colangite associada ou infecções extrapancreáticas (pneumonia, ITU, infecção de cateter). O uso profilático para prevenir a infecção da necrose estéril não é mais recomendado pelas diretrizes da IAP/APA e ACG, pois não demonstrou redução na mortalidade ou na necessidade de intervenção cirúrgica. O foco inicial deve ser hidratação e suporte.
Quando a infecção da necrose pancreática é confirmada ou fortemente suspeita, devem ser utilizados antibióticos que possuam boa penetração no tecido pancreático. Os carbapenêmicos, como o imipenem ou meropenem, são frequentemente citados devido ao seu amplo espectro contra patógenos entéricos gram-negativos e anaeróbios. Alternativas incluem a combinação de uma quinolona (ciprofloxacino) com metronidazol ou cefalosporinas de terceira geração com metronidazol, garantindo cobertura para a flora intestinal comum que transloca para o pâncreas.
A diferenciação clínica pode ser difícil, pois ambas apresentam febre e leucocitose. A suspeita de infecção aumenta se houver persistência ou piora dos sintomas após 7-10 dias de evolução. A presença de gás no interior da coleção necrótica na TC é um sinal patognomônico de infecção. Em casos de dúvida diagnóstica e deterioração clínica, a punção aspirativa por agulha fina (PAAF) guiada por imagem para cultura pode ser realizada, embora a tendência atual seja o tratamento empírico baseado na resposta clínica e marcadores inflamatórios.
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