AMRIGS - Associação Médica do Rio Grande do Sul — Prova 2024
Paciente de 54 anos com diagnóstico prévio de colelitíase inicia quadro agudo de dor abdominal epigástrica, em faixa, associada a náuseas e diversos episódios de vômitos. Na chegada ao setor de emergência, realizou radiografia de abdome agudo que excluiu pneumoperitônio. Realizou avaliação laboratorial que evidenciou elevação maior que 3x o limite da normalidade de amilase e lipase. Considerando o caso apresentado, assinale a alternativa correta.
Diagnóstico de pancreatite = 2 de 3: dor característica + amilase/lipase > 3x + imagem compatível.
O diagnóstico de pancreatite aguda é clínico-laboratorial; a imagem (TC) é reservada para casos de dúvida diagnóstica ou suspeita de complicações após 48-72h.
A pancreatite aguda é uma das causas mais comuns de hospitalização por doenças gastrointestinais. A etiologia biliar, decorrente da passagem de cálculos pela via biliar, é a causa mais frequente no Brasil. O manejo inicial foca na ressuscitação volêmica agressiva, analgesia e suporte nutricional. A compreensão de que a imagem não é obrigatória na fase inicial é crucial para evitar custos desnecessários e exposição à radiação e contraste em casos claros. A fisiopatologia envolve a ativação prematura de enzimas proteolíticas dentro do pâncreas, levando à autodigestão do parênquima e resposta inflamatória sistêmica. A estratificação de gravidade deve ser feita através de escores clínicos (como o SIRS ou o BISAP) e não apenas por exames de imagem. Se houver suspeita de etiologia biliar, a ultrassonografia de abdome superior é o exame de escolha inicial para identificar colelitíase ou coledocolitíase, mas não para diagnosticar a pancreatite em si.
De acordo com a Classificação de Atlanta revisada, o diagnóstico de pancreatite aguda requer a presença de pelo menos dois dos três critérios seguintes: 1) Dor abdominal sugestiva (início agudo, epigástrica, frequentemente irradiada para o dorso em faixa); 2) Atividade de amilase ou lipase sérica pelo menos três vezes superior ao limite superior da normalidade; 3) Achados característicos em exames de imagem (TC com contraste, RM ou ultrassonografia transabdominal).
A tomografia computadorizada (TC) de abdome com contraste não é necessária para o diagnóstico se os critérios clínicos e laboratoriais já foram preenchidos. Ela é indicada em três situações principais: 1) Dúvida diagnóstica (ex: exclusão de outras causas de abdome agudo); 2) Falha na melhora clínica após 48 a 72 horas do início dos sintomas para avaliar complicações como necrose; 3) Avaliação de gravidade em pacientes com sinais de peritonite ou instabilidade hemodinâmica.
A lipase é considerada mais sensível e específica que a amilase para o diagnóstico de pancreatite aguda, permanecendo elevada por um período mais longo (até 7-14 dias), enquanto a amilase tende a normalizar em 3-5 dias. É importante notar que o grau de elevação dessas enzimas não se correlaciona com a gravidade da doença. Valores normais de enzimas podem ocorrer em pancreatites crônicas agudizadas ou em pancreatites hipertrigliceridêmicas devido a interferências laboratoriais.
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