USP/Ribeirão Preto - Exame Revalida — Prova 2019
Mulher de 34 anos, com diagnóstico de infecção por HIV há oito anos e histórico de má adesão ao tratamento antirretroviral, é trazida ao atendimento de emergência por quadro de cefaleia progressiva e perda de peso há dois meses. Submetida a tomografia de crânio, sem visualização de alterações anatômicas. Realizada coleta de líquido cefalorraquidiano que revelou o seguinte resultado:-Celularidade: 60 cels/mL-Diferencial: polimorfonucleares 12%; linfomononucleares 88%-Proteínas: 60mg/dL-Glicose: 55mg/d-Análise microbiológica: em andamento \na. Quais análises microbiológicas devem ser solicitadas nessa amostra de líquido cefalorraquidiano? Não considere métodos moleculares para esta questão.b. Que valores de contagens de linfócitos T CD4+ devem ser esperados neste paciente?c. Qual deve ser sua conduta em relação ao tratamento da infecção por HIV?
Cefaleia crônica + HIV + CD4 < 100 → Pesquisa de fungos (Nanquim) e cultura no LCR.
Em pacientes HIV com baixa adesão e sintomas neurológicos, a investigação de meningites oportunistas (Criptococose/TB) via citoquímica e microbiologia clássica é prioritária antes de reiniciar a TARV.
A abordagem diagnóstica de meningites em pacientes vivendo com HIV/AIDS exige alto índice de suspeição para agentes oportunistas. A neurocriptococose é a causa mais comum de meningite fúngica nesta população. O quadro clínico costuma ser subagudo, com cefaleia progressiva, febre e, por vezes, ausência de sinais de irritação meníngea clássicos devido à baixa resposta inflamatória. A análise do LCR tipicamente mostra pleocitose linfocitária moderada, glicose reduzida e proteínas elevadas. A pressão de abertura deve ser sempre medida, pois a hipertensão intracraniana é uma complicação frequente e grave da criptococose. O tratamento envolve indução com Anfotericina B associada ou não à Fluocitosina, seguida de consolidação e manutenção com Fluconazol.
As análises fundamentais incluem a coloração com Tinta da China (Nanquim), que permite a visualização direta da cápsula do Cryptococcus neoformans, e a cultura para fungos em meios específicos como Sabouraud ou Agar-Sangue. Além disso, deve-se realizar a coloração de Gram e culturas para bactérias comuns, bem como a pesquisa de BAAR (Bacilo Álcool-Ácido Resistente) e cultura em meio Lowenstein-Jensen para afastar meningite tuberculosa, que é um importante diagnóstico diferencial no contexto de imunossupressão grave.
Infecções oportunistas graves do sistema nervoso central, como a neurocriptococose e a neurotoxoplasmose, ocorrem tipicamente em pacientes com contagem de linfócitos T CD4+ inferior a 100 células/mm³, frequentemente abaixo de 50 células/mm³. A pleocitose linfocitária discreta e a hiperproteinorraquia observadas no exame de LCR são compatíveis com esse estado de imunodeficiência avançada, onde a resposta inflamatória é atenuada.
O início ou reinício da Terapia Antirretroviral (TARV) deve ser postergado até que o tratamento da infecção oportunista esteja estabilizado, geralmente entre 2 a 10 semanas após o início do tratamento antifúngico ou antituberculoso. O início precoce da TARV em infecções do SNC está associado a um alto risco de Síndrome Inflamatória de Reconstituição Imune (SIRI), que pode causar edema cerebral grave e morte devido à resposta inflamatória exacerbada contra antígenos presentes no líquor.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo