MedEvo Simulado — Prova 2026
Menino de 11 anos, pardo, é levado ao pronto-atendimento por apresentar urina com coloração de "chá-mate" iniciada há 24 horas, simultaneamente a um quadro de odinofagia intensa e febre de 38,2 °C. A genitora relata que esta é a terceira vez no último ano que a criança apresenta esse escurecimento da urina coincidindo com episódios de infecção de vias aéreas superiores, com resolução espontânea da hematúria em 3 a 4 dias. Ao exame físico, o paciente apresenta-se em bom estado geral, sem edemas ou ascite. A pressão arterial aferida é de 134x86 mmHg (acima do percentil 95 para idade, sexo e estatura). Os exames laboratoriais revelam: creatinina plasmática de 0,95 mg/dL (valor de referência para a idade até 0,7 mg/dL), ureia de 46 mg/dL e eletrólitos normais. O exame de urina tipo 1 (EAS) demonstra hematúria macroscópica com presença de cilindros hemáticos e 80% de dismorfismo eritrocitário, além de proteinúria de 2+. A dosagem de complemento sérico revela C3 e C4 dentro dos limites da normalidade. A proteinúria de 24 horas foi quantificada em 48 mg/kg/dia. Considerando a principal hipótese diagnóstica para este caso clínico, assinale a alternativa correta quanto à sua fisiopatologia e manejo terapêutico:
Hematúria macroscópica síncrona à IVAS + Complemento normal = Nefropatia por IgA (Berger).
A Nefropatia por IgA é a glomerulopatia primária mais comum no mundo, caracterizada por episódios de hematúria que coincidem com infecções respiratórias.
A Nefropatia por IgA (Doença de Berger) apresenta um espectro clínico variado, desde hematúria microscópica isolada até glomerulonefrite rapidamente progressiva. O caso clássico envolve um paciente jovem com episódios recorrentes de hematúria macroscópica desencadeados por gatilhos de mucosa (IVAS ou gastroenterites). O diagnóstico definitivo é histopatológico, demonstrando depósitos mesangiais predominantes de IgA à imunofluorescência. O prognóstico é variável; fatores de risco para progressão incluem hipertensão arterial, proteinúria persistente acima de 1g/dia e redução da taxa de filtração glomerular na apresentação. O manejo foca no controle pressórico rigoroso e redução da proteinúria, utilizando-se corticoides ou imunossupressores apenas em casos selecionados de alto risco ou falha terapêutica com medidas conservadoras.
A principal diferença reside no tempo de latência e no complemento. Na Nefropatia por IgA (Berger), a hematúria é 'sinfaringítica' (ocorre junto com a infecção de vias aéreas) e o complemento (C3 e C4) é normal. Na Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica (GNPE), há um intervalo de 7 a 21 dias entre a infecção e a hematúria, e o C3 está tipicamente reduzido por até 8 semanas.
A teoria dos 'quatro hits' explica a doença: 1) Produção de IgA1 deficiente em galactose; 2) Produção de anticorpos (IgG ou IgA) contra essa IgA1 anômala; 3) Formação de imunocomplexos circulantes; 4) Deposição desses complexos no mesângio glomerular, desencadeando inflamação, proliferação mesangial e eventual fibrose.
O bloqueio do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) com Inibidores da ECA ou Bloqueadores de Receptores de Angiotensina é a pedra angular do tratamento. Eles reduzem a pressão intraglomerular e a proteinúria, exercendo um efeito nefroprotetor que retarda a progressão para doença renal crônica terminal, sendo indicados especialmente se houver hipertensão ou proteinúria > 0,5 - 1 g/dia.
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