FMJ - Faculdade de Medicina de Jundiaí - Hospital Universitário (SP) — Prova 2026
Um adulto hígido de 28 anos de idade compareceu ao pronto atendimento devido a uma mordedura de um cão. O paciente compareceu ao hospital 8 horas após o acidente e informou que o animal era de seu vizinho. O homem não apresentou qualquer mudança clínica recente, estava sob vigilância em domicílio e não possuía comprovação vacinal. A ferida estava localizada na mão esquerda, e se mostrava profunda e com exposição de tecido subcutâneo. Assinale a opção que apresenta a conduta adequada na avaliação inicial deste paciente.
Mordedura de cão → Pasteurella + Capnocytophaga + Anaeróbios; avaliar função neurovascular e articular.
O manejo inicial foca na limpeza, exploração de estruturas profundas (especialmente em mãos) e reconhecimento da microbiota polimicrobiana, onde Pasteurella spp. é o patógeno mais prevalente.
As mordeduras de cães representam uma causa comum de atendimento em prontos-socorros, exigindo uma abordagem sistemática que vai além da simples sutura. A anatomia da mão, com seus compartimentos estreitos e proximidade de estruturas nobres, torna as lesões nesta região particularmente perigosas, com alto potencial de sequelas funcionais se houver infecção não tratada. A exploração cuidadosa sob anestesia local ou regional é mandatória para descartar lesões tendinosas, nervosas ou vasculares. Do ponto de vista microbiológico, a inoculação de bactérias da cavidade oral do animal em tecidos profundos cria um ambiente propício para infecções mistas. A Pasteurella multocida é conhecida por causar celulite de rápida progressão (em menos de 24 horas). Além disso, a cobertura para anaeróbios é essencial. O desbridamento de tecidos desvitalizados e a irrigação copiosa com solução salina são as medidas mais eficazes para reduzir a carga bacteriana e prevenir complicações infecciosas.
A microbiota das mordeduras de cães é tipicamente polimicrobiana. O patógeno isolado com maior frequência é a Pasteurella multocida (e outras espécies de Pasteurella), presente em mais de 50% das feridas infectadas. Outros agentes importantes incluem Capnocytophaga canimorsus (especialmente perigosa em pacientes asplênicos ou com doença hepática), espécies de Streptococcus e Staphylococcus, além de uma vasta gama de anaeróbios como Fusobacterium e Bacteroides. O reconhecimento dessa diversidade é fundamental para a escolha da antibioticoterapia empírica, sendo o Amoxicilina-Clavulanato a droga de escolha.
A profilaxia antibiótica não é universal, mas deve ser indicada em situações de alto risco: feridas localizadas nas mãos, pés ou face; feridas profundas ou penetrantes (especialmente se atingirem periósteo ou cápsula articular); feridas que necessitam de fechamento primário; e em pacientes imunocomprometidos (diabéticos, asplênicos, cirróticos). Em feridas de mão, o limiar para profilaxia é muito baixo devido ao risco de tenossinovite e artrite séptica. O tratamento profilático geralmente dura de 3 a 5 dias, enquanto o tratamento de infecção estabelecida requer cursos mais longos.
Para um cão de estimação (vizinho) que pode ser observado, a conduta inicial depende da gravidade da lesão. Em feridas profundas (acidente grave), inicia-se o esquema vacinal. Se o animal permanecer sadio e sem sinais de raiva durante os 10 dias de observação, o esquema pode ser interrompido. Se o animal desaparecer, morrer ou adoecer, completa-se o esquema vacinal e avalia-se a necessidade de soro antirrábico. Como o paciente é hígido e o animal é observável, a vigilância domiciliar do cão é a peça-chave para evitar tratamentos desnecessários.
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