HSL/Sírio - Hospital Sírio-Libanês (DF) — Prova 2024
Uma criança de 8 anos foi conduzida pelo pai ao pronto-socorro devido a histórico de febre súbita, registrando até 38,8 ºC nas últimas duas semanas, que parcialmente cede ao uso de antipiréticos, mas retorna. Inicialmente, apresentou tosse, odinofagia, rinorreia e faringite (Figura I). Após atendimento inicial com prescrição de antitérmicos e observação, a criança desenvolveu fadiga intensa, prostração, aumento do volume abdominal e notou-se "caroços no pescoço" (Figura II). Diante desses novos sintomas, foi trazida para reavaliação. O hemograma solicitado revelou uma anemia leve normocítica e normocrômica, enquanto o leucograma quantitativo estava dentro dos parâmetros normais, sem achados relevantes, exceto pela observação em lâmina periférica de um linfócito (Figura III).A partir do quadro clínico exposto, bem como achado de exame complementar e os assuntos correlatos que ele suscita, julgue:Durante ou logo após a quadro, pode ocorrer uma complicação neurológica, na qual acontece o fenômeno de metamorfopsia que podem durar entre 4 e 6 semanas, também conhecida como "Síndrome de Alice no País das Maravilhas".
EBV → Febre + Faringite + Linfadenopatia + Linfócitos atípicos + Risco de Metamorfopsia.
A mononucleose infecciosa pelo EBV pode apresentar manifestações neurológicas raras, como a Síndrome de Alice no País das Maravilhas, caracterizada por distorções na percepção visual.
A Mononucleose Infecciosa, causada pelo vírus Epstein-Barr (EBV), é uma síndrome clínica clássica caracterizada pela tríade de febre, faringite e linfadenopatia generalizada. Em crianças e adolescentes, o quadro pode ser arrastado, durando várias semanas. A fisiopatologia envolve a infecção de linfócitos B via receptor CD21, gerando uma resposta vigorosa de células T CD8+ (os linfócitos atípicos vistos em lâmina). Embora a maioria dos casos seja autolimitada, complicações neurológicas podem ocorrer. A Síndrome de Alice no País das Maravilhas (AIWS) é uma dessas manifestações raras, envolvendo distorções visuais e somatossensoriais. Acredita-se que a inflamação viral ou mecanismos imunomediados afetem temporariamente o lobo parietal ou as áreas de associação visual. O diagnóstico é clínico e o tratamento é de suporte, com excelente prognóstico na maioria dos casos pediátricos.
É um distúrbio de percepção visual e sensorial, também conhecido como metamorfopsia. O paciente percebe objetos ou partes do corpo com tamanhos distorcidos (micropsia ou macropsia) ou formas alteradas. Na pediatria, está frequentemente associada à mononucleose infecciosa e à enxaqueca, sendo geralmente transitória e benigna.
O achado mais característico é a linfocitose com presença de linfócitos atípicos (geralmente >10% do total de leucócitos). Esses linfócitos são células T citotóxicas ativadas que combatem as células B infectadas pelo EBV. Outros achados incluem anemia leve e elevação discreta de transaminases.
O aumento do volume abdominal deve-se à esplenomegalia (aumento do baço) e, por vezes, hepatomegalia. O EBV infecta linfócitos B que proliferam nos órgãos linfoides. A esplenomegalia é um achado comum e traz o risco clínico de ruptura esplênica, motivo pelo qual atividades físicas de contato devem ser evitadas durante a fase aguda.
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