AMP - Associação Médica do Paraná — Prova 2025
Paciente do sexo feminino, 67 anos, previamente hígida, teve diagnóstico recente de mieloma múltiplo e ainda não iniciou tratamento oncológico. Foi admitida no setor de emergência devido confusão mental e rebaixamento do nível de consciência com 3 dias de evolução. Ao exame físico: • Paciente sonolenta, desperta ao chamado, confusa em tempo e espaço, afebril; - PA: 110x70; - FC: 110; - Mucosas secas e hipocoradas; - Dosagem de creatinina: 2,5 mg/dL; - Ureia: 80 mg/dL; - Sódio: 137 mEq/L; - Cálcio: 14,5 mg/dL; - Potássio: 3,4 mmol/L; - Fósforo: 2,3 mg/dL; - Ácido úrico: 3,5 mg/dL; - Hb: 8,4 g/dL; - Leucócitos: 4000/mm³; - Plaquetas: 320.000/mm³. Sobre o caso, assinale a alternativa correta:
Mieloma Múltiplo: Dipstick negativo + Proteinúria maciça → Sugere cadeias leves (Bence-Jones).
No Mieloma Múltiplo, a fita reagente de urina detecta principalmente albumina. Como a proteinúria é composta por cadeias leves (Bence-Jones), o exame pode ser falsamente negativo ou leve.
O Mieloma Múltiplo é uma neoplasia de plasmócitos caracterizada pela tríade de anemia, lesões ósseas líticas e disfunção renal. A fisiopatologia renal é multifatorial, sendo a 'nefropatia por cilindros' a forma mais comum, causada pela precipitação de cadeias leves com a proteína de Tamm-Horsfall nos túbulos distais. A hipercalcemia agrava a lesão renal através de vasoconstrição aferente e indução de diabetes insipidus nefrogênico, levando à desidratação. Clinicamente, o diagnóstico diferencial de proteinúria com dipstick negativo é essencial na prática da clínica médica e nefrologia. O tratamento definitivo envolve quimioterapia para reduzir a carga tumoral de plasmócitos, mas o suporte imediato foca na correção da calcemia e hidratação para prevenir a progressão da insuficiência renal aguda, que é um marcador prognóstico importante.
A fita reagente convencional (dipstick) utiliza o erro proteico dos indicadores para detectar proteínas, sendo altamente sensível à albumina, mas muito pouco sensível a proteínas globulinas e cadeias leves de imunoglobulinas, conhecidas como proteínas de Bence-Jones. No Mieloma Múltiplo, a principal causa de proteinúria é a excreção massiva dessas cadeias leves filtradas pelo glomérulo. Portanto, um paciente pode apresentar uma proteinúria de 24 horas extremamente elevada (ex: 5g/dia) e ainda assim ter um resultado 'negativo' ou 'traços' na fita reagente, o que exige a realização de eletroforese de proteínas urinárias para o diagnóstico correto.
A hipercalcemia no Mieloma Múltiplo decorre da infiltração da medula óssea por plasmócitos neoplásicos que estimulam a atividade osteoclástica. Isso ocorre através da secreção de citocinas ativadoras de osteoclastos, como o RANKL e a IL-6, além da inibição dos osteoblastos. O resultado é uma reabsorção óssea acelerada com liberação de cálcio na circulação. Diferente de outras causas de hipercalcemia maligna, no mieloma ela raramente é mediada pelo PTHrP ou pela produção de 1,25(OH)2D (vitamina D ativa), sendo esta última mais comum em linfomas e doenças granulomatosas.
O tratamento inicial e mais crítico da hipercalcemia grave (geralmente > 14 mg/dL) é a hidratação vigorosa com solução salina isotônica (0,9%) para restaurar o volume intravascular e promover a calciurese. O uso de diuréticos de alça, como a furosemida, deve ser reservado apenas para pacientes com sinais de sobrecarga volêmica após a reidratação, e não como terapia de primeira linha isolada. Adicionalmente, utilizam-se bisfosfonatos intravenosos (como o ácido zoledrônico) para inibir a reabsorção óssea, embora exijam ajuste de dose na insuficiência renal, e calcitonina para um efeito redutor mais rápido, porém transitório.
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