HIAE/Einstein - Hospital Israelita Albert Einstein (SP) — Prova 2023
Fábio, 19 anos, homem transgênero, negro, estudante cotista de administração em uma faculdade particular. Acompanhado pela mãe, vai à consulta em UBS com Médico de Família e Comunidade (MFC) por queixa de dor abdominal intensa em crises, há 6 meses. Procurou a emergência 3 vezes neste período e foi medicado com soro e analgésicos endovenosos com melhora parcial dos sintomas. Refere dor em pontada em regiões diferentes do abdome, acompanhadas de náuseas. Nega febre, vômitos, alterações urinárias. Realizou exames de sangue, ultrassom abdominal e exames de urina sem alterações. Está muito preocupado, com medo de ter alguma doença grave. Sente-se culpado porque sua mãe está preocupada e perde o sono por isso. Não tem histórico pessoal de doenças, seus pais são vivos e saudáveis e não tem irmãos. O médico de família investiga alimentação, hábitos, prática de exercícios físicos e percebe que desde que começou a faculdade, há 9 meses, parou de ter hábitos saudáveis, embora praticasse corrida e futebol antes. O paciente considera que deveria estar feliz na faculdade, que era um sonho realizado poder estudar, mas tem se sentido rejeitado pelos colegas e não sabe se vai conseguir continuar, refere tristeza maior parte do tempo. Exame físico normal. Entre os seguintes planos de tratamento e seguimento o melhor a ser oferecido pelo MFC é:
Dor crônica sem causa orgânica + sofrimento psicossocial → MCCP + equipe multi na APS.
O caso de Fábio ilustra a importância do Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) na Atenção Primária à Saúde. Além da queixa física, é fundamental explorar a perspectiva do paciente, seus sentimentos, o impacto da doença em sua vida e seu contexto psicossocial, especialmente em situações de vulnerabilidade e estresse. A abordagem multiprofissional é essencial para um cuidado integral.
O Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) é uma abordagem fundamental na Atenção Primária à Saúde (APS), que vai além da doença para compreender o indivíduo em sua totalidade. Ele se baseia em seis componentes: explorar a doença e a experiência da doença, compreender a pessoa como um todo, encontrar um terreno comum para o plano de manejo, incorporar a prevenção e promoção da saúde, e fortalecer a relação médico-paciente. No caso de Fábio, a dor abdominal crônica sem causa orgânica aparente, associada a um intenso sofrimento psicossocial (rejeição, tristeza, culpa, mudança de hábitos), aponta para a necessidade de uma abordagem biopsicossocial. O MFC deve ir além da investigação de sintomas físicos, explorando o impacto da transição para a faculdade, a identidade de gênero e a questão racial, que são determinantes sociais da saúde e podem estar contribuindo para o quadro. O plano de tratamento ideal envolve a escuta ativa e empática, a validação dos sentimentos do paciente e a construção de um plano terapêutico compartilhado. A prescrição de analgésicos para alívio sintomático pode ser útil, mas o foco principal deve ser o suporte psicossocial e a intervenção da equipe multiprofissional da UBS, que pode oferecer terapia, apoio social e estratégias de enfrentamento, visando a melhora da qualidade de vida e a reintegração social do paciente.
O MCCP é uma abordagem que busca compreender a doença na perspectiva do paciente, explorando suas ideias, sentimentos, expectativas e o impacto da doença em sua vida. É crucial para um cuidado integral, especialmente em casos de queixas inespecíficas ou com forte componente psicossocial, promovendo a adesão e a satisfação do paciente.
Fatores como identidade de gênero, raça, status socioeconômico e ambiente universitário podem gerar estresse e sofrimento psicossocial, manifestando-se como sintomas físicos. O MFC deve considerar esses determinantes sociais da saúde para oferecer um cuidado sensível, equitativo e eficaz, reconhecendo o impacto desses fatores na saúde do indivíduo.
A equipe multiprofissional, composta por psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e outros profissionais, é fundamental para oferecer um suporte abrangente. Eles podem auxiliar na avaliação psicossocial, no manejo da dor crônica, no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e na promoção de hábitos saudáveis, complementando a atuação do médico.
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