UERJ/HUPE - Hospital Universitário Pedro Ernesto (RJ) — Prova 2017
Com base no caso clínico abaixo, responda a pergunta a seguir: Maria, 58 anos, branca, mãe solteira, empregada doméstica. Mora com sua neta Paula, de 16 anos, filha de Joana, 32 anos. Com a implantação da equipe de saúde da família, pediu à agente comunitária de saúde que marcasse uma consulta, pois não estava se sentindo bem. Na avaliação pré-consulta consta: a) motivo da consulta “bolo na garganta e sede”; b) usa medicamentos para hipertensão e gastrite (hidroclorotiazida 25 mg/dia; enalapril 10 mg 2x/dia; omeprazol 20 mg/dia); c) sedentária; PA = 150 x 90; PR = 88; HGT = 150; peso = 78 kg; altura = 1,55 m. Na consulta, ela conversou com o médico: Médico: Bom dia, D. Maria. Em que posso ajudá-la? Maria: Sinto um aperto como se fosse um bolo na garganta. Médico: Bolo na garganta, D. Maria? Conte mais sobre isso. Maria: Sinto esse bolo sempre que me aborreço. Médico: Como assim? Maria: Quando brigo com minha neta, ela não me respeita... Médico: A senhora quer falar mais sobre esse problema? Maria: É uma menina muito agressiva [pausa]. Não quer estudar, só pensa em namorar e fica o dia todo andando com um pessoal esquisito. Médico: A senhora tem o apoio de sua filha? Maria: Ela saiu de casa e eu tive que criar a menina sozinha. Médico: Sobre este bolo, ele acontece em outras situações? Maria: Principalmente à noite, quando vou me deitar e fico pensando na vida. Médico: Tem sentido mais alguma coisa? Maria: Muita sede e acordo à noite para urinar. Médico: Está perdendo peso? Maria: Não. Estou engordando cada dia mais. Médico: Tem dificuldade ou dor para engolir? Maria: Não. Médico: Como está usando seus remédios? Maria: Tomo todo dia, mas às vezes esqueço. Médico: Essa preocupação com sua neta deve estar deixando a senhora mais ansiosa. Isso pode estar contribuindo para causar o bolo na garganta, o ganho de peso e aumentar a pressão. O que acha? Maria: Também acho que esses problemas estão me deixando doente, mas não consigo mudar as coisas. Medico: A sua glicose já foi alta alguma vez? Maria: Tive diabetes gestacional e a minha mãe amputou a perna pelo diabetes. Médico: Para entender melhor o que está acontecendo, vou pedir alguns exames. Mas seria importante também tentar ajudar sua neta, assim estaremos lhe ajudando. O que acha de marcarmos uma consulta pra ela? Maria: Posso fazer os exames e falo com minha neta sobre a consulta. Médico: Então, está combinado. Após o exame físico, o médico solicita os exames complementares, faz a prescrição, verifica se ela entendeu, marca o retorno para duas semanas e agenda uma consulta para Paula. Maria esboça um sorriso e agradece pela consulta. Identifique três etapas do Método Clinico Centrado na Pessoa que foram utilizadas na abordagem feita pelo médico à D. Maria.
MCCP → Explorar a doença e a experiência da pessoa + Entender a pessoa como um todo.
O Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) busca integrar a perspectiva do médico (doença) com a do paciente (experiência do adoecer), fortalecendo o vínculo e a adesão.
O Método Clínico Centrado na Pessoa é o pilar da Medicina de Família e Comunidade contemporânea. Ele rompe com o modelo biomédico tradicional ao valorizar a narrativa do paciente. No caso de D. Maria, o médico utiliza a escuta ativa para identificar que o 'bolo na garganta' (sintoma somático) está ligado ao conflito geracional com a neta. As três etapas identificadas no diálogo são: 1) Explorar a doença e a experiência da pessoa (ao perguntar sobre o 'bolo' e os sentimentos); 2) Entender a pessoa como um todo (ao investigar a estrutura familiar e o histórico de vida); e 3) Elaborar um plano conjunto (ao propor a consulta para a neta e os exames para a paciente, com concordância mútua). Essa abordagem holística é essencial para o manejo de doenças crônicas complexas.
Os quatro componentes são: 1. Explorar a saúde, a doença e a experiência da pessoa (usando o mnemônico SIFE: Sentimentos, Ideias, Função e Expectativas); 2. Entender a pessoa como um todo (contexto individual, familiar e social); 3. Elaborar um plano conjunto de manejo (acordo sobre o problema e metas); 4. Intensificar a relação médico-pessoa (vínculo e continuidade).
SIFE é uma ferramenta para explorar a experiência subjetiva do paciente: Sentimentos (medos e angústias), Ideias (o que o paciente acha que tem), Função (como o problema afeta o dia a dia) e Expectativas (o que o paciente espera do médico). No caso de D. Maria, o 'bolo na garganta' foi explorado através de seus sentimentos e do contexto familiar.
Ao envolver o paciente nas decisões e considerar seu contexto de vida, o MCCP aumenta a satisfação, melhora a adesão ao tratamento e reduz a solicitação de exames desnecessários. No caso apresentado, ao abordar o problema da neta, o médico atua na causa da ansiedade que descontrola a PA e a glicemia da paciente.
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