USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2020
Josefa é uma mulher negra de 62 anos de idade que frequenta a unidade básica de saúde há muitos anos. Ela era acompanhada por diabetes e hipertensão arterial, ambas as condições com bom controle clínico. Há cerca de 10 dias, Josefa foi ao Pronto-Socorro devido um desmaio seguido de perda de força em braço e perna esquerdos. Foi encaminhada a hospital terciário, com hipótese de acidente vascular, encefálico (AVE). Esta hipótese diagnóstica foi confirmada com tomografia. Ela recebeu cuidados adequados e teve alta hospitalar, ainda com alguma perda de força em perna esquerda. Hoje ela vêm em consulta e traz os documentos que recebeu na alta hospitalar, além da prescrição medicamentosa: Encaminhamento ao endocrinologista, por diabetes mellitus; Encaminhamento ao cardiologista, por hipertensão arterial sistêmica; Encaminhamento ao fisioterapeuta, para reabilitação pós-AVE; Retorno no neurologista do hospital em um mês; Durante a consulta, Josefa mostra-se preocupada com o custo dos remédios prescritos no hospital e dificuldade de ir às consultas. Chora ao falar das suas dificuldades. Ela mora com uma filha e três netos. No momento, sua filha está desempregada e era Josefa quem trabalhava como diarista para pagar as contas. Um de seus netos está envolvido com drogas e álcool e isso preocupa muito Josefa. Tem irmãos que moram em cidades vizinhas, porém sem tanta proximidade, Josefa mora em uma viela no morro, e para chegar na sua casa é preciso subir uma escada estreita e íngreme. Hoje ela teve muita dificuldade de descer os degraus para ir a UBS. O médico escuta Josefa, realiza exame clínico que constata hemiparesia desproporcionada à esquerda, com força muscular grau V em membro superior e grau III em membro inferior. O restante do exame clínico é normal. Conversa com Josefa e propõe seguir o tratamento da diabetes e hipertensão na própria UBS. Troca alguns medicamentos de sua prescrição por outros de mesmas classes disponíveis na UBS. escreve contra-referência para o hospital informando a troca de medicação e seguimento da hipertensão e diabetes na UBS, cancelando estes encaminhamentos. Planeja discutir o caso com equipe multidisciplinar para acionar o fisioterapeuta pensando na reabilitação de Josefa e assistente social para discutir indicação de benefícios aplicáveis. Por fim, combina retorno precoce com Josefa na UBS para conversar sobre a adaptação dela e da sua família a este novo ciclo de vida. Qual dos componentes do método clínico centrado na pessoa foi mais acionado para abordar as dificuldades da Josefa com o uso da medicação?
MCCP: Entender a pessoa como um todo integra a doença, a experiência da enfermidade e o contexto social.
A abordagem integral considera não apenas a patologia (AVE, DM, HAS), mas como o contexto socioeconômico e familiar impacta a adesão e o prognóstico.
O Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP) é o padrão-ouro na Medicina de Família e Comunidade. Ele se divide em quatro componentes principais: explorar a saúde, a doença e a experiência da enfermidade; entender a pessoa como um todo; elaborar um plano conjunto de manejo; e fortalecer a relação médico-pessoa. Ao considerar o contexto de Josefa (moradia em viela, desemprego da filha, luto funcional pós-AVE), o médico utiliza o segundo componente para garantir que o plano terapêutico seja viável e humano.
Este componente do MCCP busca compreender a pessoa em seu contexto individual, familiar e social. Envolve olhar além da doença biológica, considerando o ciclo de vida, o suporte familiar, as condições de moradia, a situação financeira e as crenças do paciente. No caso de Josefa, isso incluiu entender sua dificuldade de locomoção pela escadaria estreita do morro, sua responsabilidade financeira como diarista agora impedida pela hemiparesia, e o impacto emocional do vício do neto. Integrar esses elementos permite que o médico proponha intervenções que façam sentido na vida real da paciente, garantindo equidade e resolutividade no cuidado.
No Método Clínico Centrado na Pessoa, a 'doença' (disease) refere-se à alteração fisiopatológica orgânica diagnosticada pelo médico (como o AVE ou o Diabetes). Já a 'enfermidade' (illness) é a experiência subjetiva do paciente sobre seu estado de saúde, incluindo seus sentimentos (medo, tristeza), ideias sobre a causa, expectativas de cura e o impacto funcional em sua rotina. O médico deve explorar ambos: o diagnóstico técnico e o significado que a condição tem para o indivíduo. Essa integração é o que permite uma abordagem verdadeiramente centrada na pessoa, indo além do modelo biomédico tradicional e focado na cura de órgãos.
Elaborar um plano conjunto de manejo envolve definir prioridades comuns entre médico e paciente, estabelecer metas realistas e compartilhar o poder de decisão. Isso aumenta a autonomia do paciente e a adesão ao tratamento, pois as intervenções são adaptadas à realidade e aos valores daquela pessoa específica. No caso de Josefa, o plano conjunto incluiu a troca de medicamentos por opções acessíveis na UBS, o cancelamento de encaminhamentos desnecessários para centralizar o cuidado na atenção primária e o acionamento da rede de assistência social. O sucesso terapêutico depende dessa pactuação, onde o paciente se sente corresponsável pelo seu processo de saúde.
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