FMP/UNIFASE - Faculdade de Medicina de Petrópolis (RJ) — Prova 2022
Você é residente em uma equipe de saúde da família e conhece Rafaela, 30 anos, desde que ela acompanhava seu pai, que esteve acamado por um AVC e faleceu há seis meses. Rafaela sempre pareceu muito forte, ágil, decidida. Dessa vez chega abatida: "Preciso muito de ajuda, não me sinto bem, já faz mais de um mês, mas agora piorou, tô desanimada, não consigo mais fazer minhas coisas, sinto que não vou dar conta. Se pudesse me enfiava embaixo da cama e não saía mais”. Você a ouve atentamente, sem interromper, demonstrando interesse pela narrativa dela. Rafaela continua: "Ando muito irritada, ansiosa, brigo com todo mundo, meu marido já não me aguenta, no trabalho também não. A noite fico pensando num monte de coisas e não consigo dormir. Será que é depressão?". Rafaela avança, "Mas acho que pode ser do cansaço também, pois não parei mais desde que meu pai ficou doente; cuidar dele, das crianças, trabalhar fora e, agora (começa a chorar), o Rogério (o marido) desempregado". Qual a conduta adequada na situação?
Luto/estresse crônico → Acolhimento, escuta ativa e suporte psicossocial são a primeira linha; evitar medicação imediata sem avaliação aprofundada.
A paciente apresenta sintomas de sofrimento psíquico intensificados por um luto recente e estressores crônicos. Embora os sintomas se assemelhem à depressão, o contexto de luto e estresse sugere uma reação adaptativa. A conduta inicial adequada é o acolhimento, escuta ativa e oferta de suporte psicossocial, com acompanhamento, evitando a medicalização imediata sem uma avaliação mais aprofundada ou tentativa de intervenções não farmacológicas.
O sofrimento psíquico é uma experiência humana universal, frequentemente desencadeada por eventos de vida estressantes, como o luto, perdas significativas ou estresse crônico. Na Atenção Primária à Saúde (APS), é comum encontrar pacientes que apresentam sintomas como desânimo, irritabilidade, ansiedade e insônia, que podem ser reacionais a essas circunstâncias. É crucial que o residente saiba diferenciar um sofrimento psíquico adaptativo de um transtorno mental estabelecido, como um Transtorno Depressivo Maior. A epidemiologia mostra que o luto é um processo natural, mas que pode evoluir para um luto complicado ou desencadear um episódio depressivo em indivíduos vulneráveis. A importância clínica reside na capacidade de oferecer o suporte adequado, evitando a medicalização desnecessária e promovendo a resiliência. A fisiopatologia do sofrimento psíquico reacional envolve a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e a desregulação de neurotransmissores em resposta ao estresse. O diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente e no contexto psicossocial. É fundamental suspeitar de sofrimento psíquico em pacientes com queixas inespecíficas ou somáticas, especialmente após eventos estressores. O tratamento inicial e mais adequado na APS para o sofrimento psíquico reacional é o acolhimento, a escuta ativa e o suporte psicossocial. Isso inclui validar os sentimentos do paciente, oferecer um espaço seguro para expressão, estimular atividades prazerosas, promover hábitos de vida saudáveis e, se necessário, ofertar novas consultas para acompanhamento. A medicalização com antidepressivos ou benzodiazepínicos deve ser uma segunda linha, reservada para casos de transtornos mentais bem estabelecidos, luto complicado persistente ou sintomas graves que não respondem às intervenções não farmacológicas, sempre com cautela e monitoramento rigoroso. O prognóstico é geralmente bom com o suporte adequado, mas a falta de intervenção pode cronificar o sofrimento.
Sinais de alarme incluem ideação suicida persistente e planejada, psicose, grave prejuízo funcional que impede o autocuidado, ou sintomas depressivos graves que persistem por um período prolongado (geralmente >6 meses) e não respondem a intervenções não farmacológicas.
O acolhimento e a escuta ativa são fundamentais para estabelecer vínculo de confiança, validar o sofrimento do paciente, permitir a expressão de emoções e identificar as reais necessidades. Isso pode, por si só, ser terapêutico e orientar as próximas etapas do cuidado, evitando a medicalização desnecessária.
Antidepressivos devem ser considerados se os sintomas depressivos persistirem por um período prolongado (luto complicado) ou atingirem a gravidade de um Transtorno Depressivo Maior, após tentativas de intervenções não farmacológicas. Benzodiazepínicos devem ser usados com extrema cautela e por curto período, apenas para insônia ou ansiedade grave e incapacitante, devido ao risco de dependência e efeitos adversos.
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