Manejo da Ansiedade na Atenção Primária pelo MFC

UFPA/HUJBB - Hospital Universitário João de Barros Barreto - Belém (PA) — Prova 2019

Enunciado

A seguir, você vai ler o histórico clínico do Sr. Manuel pelo RMOP/SOAP (Registro Médico Orientado por Problemas) atendido por um MFC na USF Parque Amazônia I. Você vai ler o SOAP, em que o “S” significa Subjetivo (queixa + história clínica de evolução), o “O”, Objetivo (exame físico + exames complementares), o “A”, Avaliação (Lista de problemas) e o “P”, Plano (conduta diagnóstica/ terapêutica/ de seguimento/ de educação em saúde). O RMOP/SOAP foi incorporado ao e-SUS como registro médico oficial do SUS. Leia e analise o SOAP do Sr. Manuel e responda às questões 72, 73 e 74. S Demanda por exames de retorno. Sr. Manuel, 56 anos, negro, estivador, vem a consulta de retorno trazendo consigo os exames solicitados na consulta anterior. Fuma 20 cigarros por dia há 30 anos, não pratica atividade física regularmente e não faz uso de medicações. O pai é falecido de IAM. A mãe viva e hipertensa. Dificilmente procura o serviço de saúde. Só veio porque a esposa insistiu e o trouxe junto. Referiu que quando trabalha sente dor precordial, tonturas, turvação da vista e forte dor de cabeça chegando a parar de trabalhar pra depois recomeçar. Afirma que este episódio já aconteceu 2 vezes na última semana, e por isso ficou preocupado. Afirma que nos demais dias não sentia nada e por isso não deu importância. Mas agora sente medo de sofrer “infarto ou derrame ”, como seu pai. Refere que nas últimas semanas está sofrendo bastante pressão no trabalho por parte do seu encarregado, pois a mercadoria tem que ser descarregada rapidamente, reclamando que ele e os colegas fazem “corpo mole”. Fica suando frio, e às vezes respira fundo antes de partir para o trabalho. Afirma que dá vontade “de jogar tudo pro alto” e até de agredir o seu chefe devido às humilhações que sofre, mas fica “se segurando ”, e isto o atormenta, inclusive está com frequente insônia. O Bom estado geral, descorado (1+/4+), hidratado, rosto cansado, obeso, presença de dispneia suspirosa, sudorese intensa, olheiras evidentes, acianótico, anictérico, afebril, dispneico. Peso: 90 kg; altura: 1,62 m; IMC 34,3 kg/m². Frequência cardíaca: 115 bpm; pressão arterial: 150 x 100 mmHg. Frequência respiratória: 26 irpm; saturação de 02: 97% em ar ambiente. Exames cardíacos e pulmonar: sem alterações. Estado psíquico: demonstra-se bastante ansioso e inquieto, verborreico, com dispneia suspirosa, sudorese intensa. Laboratório: Glicemia de jejum: 260 mg/dl; Creatinina: 1,1mg/dL; Sódio Sérico: 143 mEq/L; Potássio sérico: 4,2 mEq/L. A Demanda por exame de retorno. Medo/preocupação com a doença. Sintomas ansiosos. Medida de PA elevada. Obesidade grau 2. Tabagismo. Sedentarismo. Medida de Glicemia alterada. P Converso sobre o medo de doença e sobre a importância de trabalhar os fatores de risco: tabagismo, Obesidade e sedentarismo (dieta e atividade física - mudança de estilo de vida). Escuta ativa e Abordagem de apoio. Introduzo anti-hipertensivo: Diurético tiazídico +IECA. MRPA. Solicito exames: eletrocardiograma, perfil lipídico, nova glicemia de jejum e hemoglobina glicada. Oriento retornar após resultados de exames e para avaliar introdução de psicoterapia e terapia medicamentosa. No SOAP do Sr. Manuel, um dos problemas elencados foram os sintomas ansiosos, em relação aos quais é correto afirmar:

Alternativas

  1. A) A escuta ativa e o entendimento da situação atual de vida da pessoa, aliados à compreensão de seu desenvolvimento psíquico, podem ajudar o MFC na estratégia terapêutica mais adequada, que pode ser de apoio e mais medicação.
  2. B) Não compete ao MFC iniciar um tratamento psiquiátrico, devendo referenciar a pessoa ao CAPS mais próximo.
  3. C) Ao MCF está indicada a escuta ativa e uma abordagem de apoio, não cabendo a ele o tratamento medicamentoso, pois é tarefa do psiquiatra.
  4. D) O MFC deve utilizar doses subterapêuticas dos psicofármacos para depois, progressivamente, aumentar as doses, a fim de se evitar os efeitos colaterais. 
  5. E) A contribuição de um psiquiatra pode auxiliar na compreensão do quadro do Sr. Manuel, portanto, referenciar sempre.

Pérola Clínica

MFC atua na ansiedade com escuta ativa, apoio e pode iniciar medicação, integrando cuidado biopsicossocial.

Resumo-Chave

O Médico de Família e Comunidade (MFC) tem papel fundamental no manejo da ansiedade, utilizando escuta ativa, abordagem de apoio e, quando indicado, iniciando tratamento medicamentoso. A compreensão do contexto de vida do paciente é crucial para uma estratégia terapêutica integral e eficaz, evitando encaminhamentos desnecessários.

Contexto Educacional

A ansiedade é um dos transtornos mentais mais prevalentes na atenção primária, e o Médico de Família e Comunidade (MFC) desempenha um papel crucial em seu reconhecimento e manejo. A abordagem do MFC é integral, considerando os aspectos biológicos, psicológicos e sociais do paciente, inserindo o cuidado em saúde mental no contexto da saúde geral. A capacidade de realizar uma escuta ativa e empática é fundamental para estabelecer um vínculo de confiança e compreender as queixas e o contexto de vida do indivíduo. No caso do Sr. Manuel, seus sintomas ansiosos estão claramente relacionados a estressores ocupacionais e preocupações com a saúde, exacerbados por fatores de risco cardiovascular. O MFC, ao integrar a avaliação clínica com a compreensão psicossocial, pode oferecer uma abordagem de apoio, psicoeducação sobre a relação entre estresse e saúde, e, se indicado, iniciar o tratamento farmacológico para a ansiedade, como antidepressivos (inibidores seletivos da recaptação de serotonina - ISRS) ou ansiolíticos em curto prazo, sempre monitorando os efeitos e a resposta. A estratégia terapêutica deve ser individualizada. A atenção primária é o cenário ideal para o manejo da maioria dos casos de ansiedade, com o MFC atuando como coordenador do cuidado. O encaminhamento para a psiquiatria ou psicologia (CAPS) deve ser considerado em casos de ansiedade grave, refratária ao tratamento inicial, com comorbidades psiquiátricas complexas, risco de suicídio ou quando o MFC se sentir inseguro. No entanto, o MFC é o primeiro e muitas vezes o único profissional de saúde que o paciente procura, sendo essencial sua capacitação para o manejo inicial e longitudinal, promovendo a saúde mental na comunidade.

Perguntas Frequentes

Qual o papel do Médico de Família e Comunidade (MFC) no manejo da ansiedade?

O MFC tem um papel central no manejo da ansiedade, realizando o diagnóstico, oferecendo escuta ativa e apoio psicossocial, e iniciando o tratamento medicamentoso (como ISRS) quando necessário. Ele também monitora a resposta ao tratamento e identifica a necessidade de encaminhamento para especialistas em casos mais complexos.

Por que a escuta ativa é importante na abordagem da ansiedade na atenção primária?

A escuta ativa permite ao MFC compreender o contexto de vida do paciente, suas preocupações, medos e gatilhos para a ansiedade, facilitando a construção de um plano terapêutico individualizado e fortalecendo o vínculo médico-paciente, que é fundamental para a adesão ao tratamento.

Quando o MFC deve considerar o tratamento medicamentoso para ansiedade?

O MFC deve considerar o tratamento medicamentoso para ansiedade em casos de sintomas moderados a graves que causam sofrimento significativo ou comprometimento funcional, após avaliação clínica, considerando as comorbidades do paciente e falha de abordagens não farmacológicas iniciais. A escolha da medicação deve seguir diretrizes clínicas.

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