INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2011
Mulher, com 20 anos de idade, branca, é recebida no pronto-socorro com queixa de edema há uma semana. Inicialmente, o edema era nos membros inferiores, porém, agora, nota a face edemaciada. Relata, ainda, diminuição do volume urinário, astenia, hiporexia, mal estar e febre baixa. Quanto aos antecedentes patológicos, artralgia de interfalangeanas proximais há cerca de oito meses. Na ocasião, fez uso de prednisona com desaparecimento do quadro. Não usa nenhuma medicação no momento. O exame clínico demonstra estado geral regular, hipocorada (++/4), edema de membros inferiores (++/4 - e de face. Ausculta pulmonar com murmúrio vesicular presente e simétrico, sem ruídos adventícios. Ausculta cardíaca com ritmo cardíaco regular, em 2 tempos, sem sopros, Pressão arterial = 160 x 110 mmHg, Frequência cardíaca = 120 bpm. Abdome flácido, sem visceromegalias. Exames no pronto-socorro: Hemoglobina = 8,0 g/L, Hematócrito 24,0 %, Leucócitos totais = 2.400 /mm³ (Segmentados = 84%, Bastões = 2%, Linfócitos = 8%, Eosinófilos = 2%, Monócitos = 2%), Plaquetas = 100.000 /mm³ (Valor de Referência = 150.000 – 300.000 /mm³). Ureia = 140 mg/dL, (Valor de Referência: 15-40 mg/dL), Creatinina = 2,0 mg/dL (Valor de Referência: 0,6-1,2 mg/dL), Potássio = 5,5 mEq/L (Valor de Referência: 3,5-5,0 mEq/L). Qual a hipótese diagnóstica para o caso?
Mulher jovem + Artralgia + Citopenias + Hipertensão/Edema (Nefrite) → Pensar em Lúpus (LES).
O Lúpus Eritematoso Sistêmico é uma doença autoimune multissistêmica. O caso apresenta critérios clínicos (artrite, nefrite) e laboratoriais (anemia, leucopenia, plaquetopenia) clássicos.
O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é o protótipo das doenças autoimunes, caracterizado pela produção de autoanticorpos contra antígenos nucleares. Sua prevalência é significativamente maior em mulheres em idade fértil (proporção de 9:1). O diagnóstico é desafiador devido à heterogeneidade clínica, exigindo a integração de achados cutâneos, articulares, renais, hematológicos e serológicos. A nefrite lúpica é uma das complicações mais graves e um importante determinante de prognóstico. A classificação histopatológica (Classes I a VI) guia o tratamento, que geralmente envolve imunossupressão agressiva com corticoides e agentes como micofenolato ou ciclofosfamida. O reconhecimento precoce das manifestações hematológicas e renais no pronto-socorro é crucial para evitar a progressão para insuficiência renal terminal.
A paciente apresenta critérios clínicos claros: artrite (história de artralgia em interfalangeanas), nefrite (edema, hipertensão, oligúria e disfunção renal) e alterações hematológicas (anemia, leucopenia/linfopenia e plaquetopenia). Segundo os critérios do ACR ou SLICC, a presença de 4 ou mais critérios, incluindo pelo menos um imunológico e um clínico, ou nefrite comprovada por biópsia com FAN ou anti-DNA positivos, confirma o diagnóstico. No pronto-socorro, a associação de multissistemicidade em mulher jovem é altamente sugestiva.
A nefrite lúpica pode se manifestar desde uma proteinúria assintomática até uma síndrome nefrítica ou nefrótica franca. No caso clínico, a paciente apresenta sinais de síndrome nefrítica: hipertensão arterial (160x110 mmHg), edema (facial e de membros inferiores) e queda da taxa de filtração glomerular (creatinina 2.0 mg/dL). A presença de febre baixa e astenia reforça o caráter inflamatório sistêmico da doença em atividade.
As citopenias são critérios diagnósticos fundamentais no LES. A anemia (Hb 8,0) pode ser decorrente de doença crônica ou hemólise autoimune. A leucopenia (2.400) com linfopenia (8%) e a plaquetopenia (100.000) refletem a destruição periférica mediada por anticorpos ou supressão medular inflamatória. No contexto de uma doença multissistêmica, a pancitopenia deve sempre levantar a suspeita de lúpus.
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