Famema/HCFMM - Faculdade de Medicina de Marília (SP) — Prova 2025
Escolar, sexo masculino, 9 anos de idade, frequenta escola e joga futebol em campinho de várzea. Há 1 semana, apresentou picos febris medidos entre 38 e 40 °C, cefaleia, calafrios, mialgia generalizada, náuseas e vômitos por 2 dias. Persiste com picos febris, cefaleia intensa bitemporal e frontal, dor muscular mais intensa em membros inferiores, principalmente em panturrilhas. Ao exame, está prostrado, com hemorragias em conjuntivas com pouca secreção purulenta. O fígado é palpável a 2 cm do rebordo costal direito e o baço está palpável a 3 cm do rebordo costal esquerdo. No exame do líquido cefalorraquidiano, há 320 células/mm³ sendo 90% linfócitos, glicose de 60 mg/dL e proteínas 70 mg/dL. A hipótese diagnóstica mais provável é:
Febre + Mialgia intensa (panturrilhas) + Sufusão conjuntival = Leptospirose.
A leptospirose deve ser suspeitada em pacientes com febre, dor intensa em panturrilhas e sufusão conjuntival. O acometimento meníngeo com LCR linfocitário é uma manifestação comum na fase imune.
A leptospirose é uma zoonose de importância mundial, causada por espiroquetas do gênero *Leptospira*. A transmissão ocorre pelo contato com urina de animais infectados (principalmente ratos) ou água/solo contaminados. A doença possui duas fases: a fase leptospirêmica (aguda), com febre e mialgia, e a fase imune, onde podem surgir manifestações como a meningite asséptica e uveíte. O caso clínico descrito — escolar com exposição a campo de várzea (risco epidemiológico), febre alta, mialgia em panturrilhas e sufusão conjuntival — é a apresentação clássica da forma anictérica. O achado de pleocitose linfocitária no LCR confirma o envolvimento neurológico. O tratamento precoce com antibióticos (como amoxicilina ou doxiciclina) é fundamental para prevenir a progressão para a forma grave (Síndrome de Weil), caracterizada por icterícia rubínica, insuficiência renal e hemorragia alveolar.
A mialgia na leptospirose é frequentemente generalizada, mas a dor intensa localizada nas panturrilhas é um sinal clássico e altamente sugestivo da doença. A fisiopatologia envolve uma miosite direta causada pela invasão da bactéria *Leptospira* e pela resposta inflamatória sistêmica. Essa dor pode ser tão incapacitante que o paciente apresenta dificuldade para deambular, sendo um importante diferencial clínico em relação a outras síndromes febris agudas como dengue ou gripe.
A sufusão conjuntival consiste em uma hiperemia (vermelhidão) das conjuntivas, tipicamente sem secreção purulenta, que aparece precocemente na leptospirose. Diferente de uma conjuntivite viral ou bacteriana comum, ela se manifesta como uma dilatação vascular acentuada. É considerada um sinal patognomônico em contextos epidemiológicos sugestivos (exposição a águas de enchente ou esgoto), ajudando a diferenciar a leptospirose de outras doenças infecciosas febris.
A leptospirose pode causar uma meningite asséptica, geralmente na sua segunda fase (fase imune). O líquido cefalorraquidiano (LCR) tipicamente apresenta pleocitose linfocitária (predomínio de linfócitos), glicose normal e um leve aumento de proteínas. Esse padrão é semelhante ao das meningites virais, mas o contexto clínico de mialgia severa, sufusão conjuntival e possível alteração de função renal ou hepática direciona o diagnóstico para a etiologia bacteriana pela *Leptospira*.
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