Leishmaniose Visceral: Fisiopatologia e Manifestações Clínicas

INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2013

Enunciado

Uma criança com 10 anos de idade é trazida ao hospital de referência, em cidade de grande porte, com quadro que já se arrasta há seis meses. Apresenta febre irregular intercalada com períodos de apirexia, anorexia e perda ponderal de 6 Kg. A mãe relata, ainda, diarreia ocasional, sangramento gengival frequente, epistaxe e episódios de pneumonia e otite, tratados com antibióticos nos dois últimos meses, pouco antes da mudança realizada pela família, que saiu de uma cidade da zona rural para uma cidade da zona urbana. Ao exame, a criança apresenta-se emagrecida, hipodesenvolvida para a idade, cabelos finos e quebradiços, hipocorada 2+/4, anictérica, com micropoliadenopatia cervical e axilar bilateral, sopro sistólico 2+/6+, pancardíaco, abdome distendido, com fígado palpável a 5 cm do rebordo costal direito, baço palpável a 8 cm do rebordo costal esquerdo, edema de membros inferiores 1+/4, frio e com cacifo. Temperatura axilar = 37,8°C; PA = 100x70 mmHg; FC = 104 bpm; FR = 18 irpm. A melhor correlação entre a manifestação clínica apresentada pela criança e seu mecanismo fisiopatológico, nessa endemia brasileira, é:

Alternativas

  1. A) A esplenomegalia como efeito da hipertrofia progressiva, por aumento da pressão sanguínea no sistema portal intra-hepático e da veia esplênica.
  2. B) As infecções bacterianas como seguimento ao aumento da resposta imunológica TH1 e da produção exagerada de interferon gama e interleucina 2.
  3. C) O edema de membros inferiores, frio e com cacifo, como consequência da insuficiência cardíaca congestiva secundária a miocardiopatia dilatada.
  4. D) A anemia como resultado da combinação de hemólise, ocupação de medula óssea por macrófagos infectados, hemorragias e sequestro esplênico.
  5. E) Os sangramentos gengivais e epistaxe como efeito da diminuição da produção de fatores de coagulação pela lesão direta e insuficiência hepatocelular.

Pérola Clínica

Febre + Hepatoesplenomegalia + Pancitopenia → Pensar em Leishmaniose Visceral (Calazar).

Resumo-Chave

A anemia no Calazar é multifatorial, envolvendo sequestro esplênico, hemólise, hemorragias por plaquetopenia e ocupação medular por macrófagos parasitados.

Contexto Educacional

A Leishmaniose Visceral é uma zoonose causada pelo protozoário Leishmania infantum (chagasi no Brasil), transmitida pelo vetor Lutzomyia longipalpis. A fisiopatologia central envolve a invasão do sistema fagocítico mononuclear. O acúmulo de macrófagos infectados no baço e fígado causa a organomegalia característica. A pancitopenia é um marcador de gravidade, predispondo o paciente a infecções secundárias (leucopenia) e fenômenos hemorrágicos (plaquetopenia). O diagnóstico padrão-ouro é a visualização de amastigotas em aspirado de medula óssea ou testes sorológicos (como o teste rápido rK39).

Perguntas Frequentes

Por que ocorre anemia na Leishmaniose Visceral?

A anemia na Leishmaniose Visceral (Calazar) é resultante de um mecanismo complexo e multifatorial. Primeiramente, há o sequestro esplênico devido à esplenomegalia massiva (hiperesplenismo). Além disso, ocorre a ocupação da medula óssea por macrófagos infectados por amastigotas de Leishmania, o que prejudica a eritropoiese. Outros fatores contribuintes incluem a hemólise imunomediada, o estado inflamatório crônico que reduz a disponibilidade de ferro e as perdas hemorrágicas secundárias à plaquetopenia.

Qual a tríade clássica do Calazar?

A tríade clássica da Leishmaniose Visceral consiste em febre prolongada (geralmente irregular), pancitopenia (anemia, leucopenia e plaquetopenia) e hepatoesplenomegalia, sendo a esplenomegalia frequentemente mais proeminente que a hepatomegalia. O quadro costuma ser acompanhado de emagrecimento importante e hiperpigmentação cutânea em alguns casos.

Como diferenciar Calazar de Esquistossomose na prova?

No Calazar, a febre é um sintoma cardinal e persistente, acompanhada de pancitopenia importante devido ao acometimento sistêmico e medular. Na Esquistossomose (forma hepatoesplênica), o paciente geralmente está afebril e a pancitopenia, quando ocorre, é secundária apenas ao hiperesplenismo por hipertensão portal, sem o componente de invasão medular ou febre crônica.

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