Doação de Órgãos e Manejo do Potencial Doador em UTI

MedEvo Simulado — Prova 2026

Enunciado

Daniel, um homem de 42 anos, foi admitido em unidade de terapia intensiva após traumatismo cranioencefálico grave decorrente de uma queda de altura. Após sete dias de manejo neurocrítico, o paciente evoluiu com sinais clínicos de morte encefálica. O protocolo diagnóstico foi rigorosamente seguido, com a realização de dois exames clínicos por médicos diferentes e capacitados, teste de apneia positivo e um exame complementar demonstrando ausência de fluxo sanguíneo cerebral. Durante a entrevista para doação de órgãos, a esposa de Daniel apresenta uma escritura pública assinada por ele em cartório manifestando o desejo de ser doador. No entanto, o pai do paciente, presente na reunião, declara-se terminantemente contrário à doação por convicções religiosas pessoais. Clinicamente, o paciente apresenta-se instável, com pressão arterial média de 62 mmHg sob uso de noraepinefrina, débito urinário de 750 mL/h nas últimas duas horas e sódio sérico de 159 mEq/L. Com base na legislação brasileira vigente e nos cuidados de manutenção do potencial doador, assinale a alternativa correta.

Alternativas

  1. A) A presença de instabilidade hemodinâmica e hipernatremia acima de 155 mEq/L invalida o diagnóstico de morte encefálica, exigindo a suspensão do protocolo e nova testagem após estabilização.
  2. B) A oposição de um parente de primeiro grau, como o pai, gera um impedimento legal absoluto para a doação, mesmo que o cônjuge apresente autorização formal por escrito.
  3. C) A doação pode ser autorizada legalmente pela esposa de Ricardo, e o quadro de poliúria associado à hipernatremia deve ser manejado com reposição de fluidos hipotônicos e vasopressina.
  4. D) A manifestação de vontade expressa por Ricardo em cartório é soberana, garantindo legalmente a doação de órgãos independentemente da anuência ou oposição de seus familiares.

Pérola Clínica

Morte encefálica + poliúria + hipernatremia → Diabetes Insipidus → Reposição volêmica + Vasopressina.

Resumo-Chave

A autorização familiar (cônjuge ou parentes até 2º grau) é soberana no Brasil para doação de órgãos. O manejo do doador foca na estabilidade hemodinâmica e controle do diabetes insipidus.

Contexto Educacional

O diagnóstico de morte encefálica no Brasil segue critérios rigorosos definidos pela Resolução CFM nº 2.173/2017, exigindo dois exames clínicos, um teste de apneia e um exame complementar. Uma vez confirmado, o foco muda para a manutenção da viabilidade dos órgãos. O diabetes insipidus é uma complicação quase universal devido à isquemia hipofisária, levando a distúrbios hidroeletrolíticos graves que podem comprometer a função renal e cardíaca do enxerto. A legislação brasileira evoluiu de uma 'doação presumida' para uma 'doação consentida', onde o papel da família é central. O acolhimento familiar e a comunicação clara sobre a irreversibilidade do quadro são fundamentais para o sucesso da doação. O manejo clínico envolve metas rigorosas de pressão arterial, oxigenação, temperatura e equilíbrio ácido-básico, utilizando frequentemente noradrenalina e reposição hormonal (levotiroxina, corticoides e vasopressina) para contrabalançar a falência endócrina pós-morte encefálica.

Perguntas Frequentes

Quem autoriza a doação de órgãos no Brasil?

De acordo com o Decreto nº 9.175/2017, a doação de órgãos e tecidos de doador falecido depende da autorização do cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo, maior de idade, até o segundo grau. Mesmo que o falecido tenha deixado manifestação por escrito em vida, a decisão final cabe à família, que deve assinar o termo de autorização após a confirmação da morte encefálica. A recusa familiar é um impedimento absoluto para a captação de órgãos.

Como tratar o Diabetes Insipidus no potencial doador?

O diabetes insipidus neurogênico é comum na morte encefálica devido à perda de secreção de ADH. O quadro clínico envolve poliúria (> 4ml/kg/h), hipernatremia (> 145 mEq/L) e densidade urinária baixa. O tratamento consiste na reposição de fluidos hipotônicos para compensar o déficit de água livre e no uso de análogos do ADH, como a desmopressina (DDAVP) ou vasopressina em infusão contínua, visando manter o sódio sérico entre 130-150 mEq/L.

Instabilidade hemodinâmica invalida o protocolo de morte encefálica?

Não. Embora a estabilidade hemodinâmica mínima (PAM ≥ 65 mmHg ou PAS ≥ 90 mmHg) seja necessária para a realização dos testes clínicos e do teste de apneia, a presença de instabilidade durante o processo não anula o diagnóstico já confirmado. Pelo contrário, o diagnóstico de morte encefálica frequentemente cursa com 'tempestade autonômica' seguida de colapso cardiovascular, exigindo suporte vasopressor agressivo para manter a perfusão dos órgãos a serem doados.

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