MedEvo Simulado — Prova 2026
Enzo, um lactente de 10 meses de idade, previamente hígido, é levado à unidade de pronto atendimento com história de crises de choro súbito e inconsolável que se iniciaram há cerca de 14 horas. A mãe relata que, durante os episódios de dor, o bebê retrai as pernas contra o abdome e apresenta palidez cutânea, ficando muito sonolento e letárgico nos intervalos entre as crises. Nas últimas 4 horas, apresentou três episódios de vômitos, inicialmente alimentares e agora com aspecto bilioso. Ao exame físico, o paciente encontra-se desidratado (grau leve), com abdome discretamente distendido e presença de uma massa alongada, de consistência firme, palpável em flanco e hipocôndrio direitos. O toque retal revela a presença de muco discretamente sanguinolento (aspecto em geleia de morango). A ultrassonografia abdominal solicitada demonstrou uma imagem em 'alvo' (ou 'casca de cebola') no quadrante superior direito, confirmando a suspeita clínica. Após a estabilização hemodinâmica inicial com expansão volêmica, a conduta terapêutica mais adequada para este paciente é:
Dor abdominal paroxística + Massa palpável + Geleia de morango → Redução por Enema.
A intussuscepção é a causa mais comum de obstrução intestinal em lactentes; o tratamento inicial em pacientes estáveis é a redução não cirúrgica guiada por imagem.
A intussuscepção intestinal ocorre tipicamente entre os 3 e 12 meses de idade, sendo a causa mais frequente de obstrução intestinal nessa faixa etária. Frequentemente é idiopática, mas pode estar associada a hiperplasia de placas de Peyer após infecções virais recentes. O diagnóstico precoce é crucial para evitar o comprometimento vascular da alça, isquemia e necrose. O ultrassom é o exame de escolha, apresentando o 'sinal do alvo' ou 'casca de cebola' com altíssima sensibilidade. O manejo conservador com enema pneumático ou hidrostático revolucionou o prognóstico, reduzindo drasticamente a necessidade de intervenções cirúrgicas mutilantes. Após a redução, o paciente deve ser observado para monitorar recorrências, que ocorrem em cerca de 10% dos casos, geralmente nas primeiras 24 horas.
A tríade clássica consiste em dor abdominal paroxística (crises de choro súbito com retração de membros), massa abdominal palpável (geralmente em forma de salsicha no quadrante superior direito) e fezes em 'geleia de morango' (muco sanguinolento). No entanto, essa tríade completa está presente em menos de 50% dos casos. A letargia entre as crises de dor é um sinal clínico importante e frequentemente negligenciado que deve elevar a suspeita diagnóstica em lactentes, mesmo na ausência de vômitos ou sangue nas fezes.
As principais contraindicações para a redução não cirúrgica (seja pneumática ou hidrostática) incluem evidência de perfuração intestinal (presença de pneumoperitônio no raio-X de abdome), peritonite franca ao exame físico (abdome em tábua, descompressão dolorosa) ou instabilidade hemodinâmica refratária (choque). Nesses casos, a abordagem deve ser cirúrgica imediata (laparotomia ou laparoscopia) para redução manual e possível ressecção de alças necróticas ou inviáveis.
A redução pneumática envolve a insuflação controlada de ar através do reto sob monitorização fluoroscópica ou ultrassonográfica contínua. A pressão do ar empurra a alça invaginada (intussusceptum) de volta para sua posição anatômica original. A taxa de sucesso é alta, variando entre 80% e 95% em centros experientes. É considerada mais segura, limpa e rápida que a redução hidrostática com bário, apresentando menor risco de peritonite química grave em caso de perfuração acidental durante o procedimento.
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