Intoxicação por Paracetamol em Pediatria: Conduta e Antídoto

Famema/HCFMM - Faculdade de Medicina de Marília (SP) — Prova 2026

Enunciado

Pré-escolar, sexo feminino, 3 anos de idade, é encontrada com uma cartela de paracetamol na mão. Pela estimativa dos familiares, ela ingeriu 4 comprimidos de 750 mg cada. Chega ao atendimento médico aproximadamente 4 horas após a ingestão. Está assintomática. Ao exame clínico: criança em bom estado geral, consciente e orientada, PA: 96x54 mmHg, FC: 108 bpm, FR: 26 irpm, sem alterações significativas. Peso de 15 kg. A conduta mais apropriada é:

Alternativas

  1. A) Realizar apenas lavagem gástrica.
  2. B) Administrar lavagem gástrica seguida de carvão ativado.
  3. C) Infusão de acetilcisteína endovenosa.
  4. D) Alta hospitalar com observação domiciliar.

Pérola Clínica

Ingestão de paracetamol > 150-200 mg/kg em crianças → Risco de hepatotoxicidade; conduta: Acetilcisteína precoce.

Resumo-Chave

A toxicidade do paracetamol é mediada pelo metabólito NAPQI. Em doses elevadas (>150mg/kg), as reservas de glutationa se esgotam, exigindo reposição com N-acetilcisteína.

Contexto Educacional

A intoxicação por paracetamol é uma das causas mais comuns de insuficiência hepática aguda evitável em todo o mundo. Em crianças, a ingestão acidental por descuido doméstico é frequente. O manejo baseia-se na descontaminação gástrica (se o paciente chegar em até 1-2 horas) e no uso do antídoto específico, a N-acetilcisteína. O reconhecimento da dose tóxica e a intervenção rápida são determinantes para o prognóstico favorável. Fisiopatologicamente, o paracetamol é metabolizado principalmente por glicuronidação e sulfatação. Quando essas vias saturam, o citocromo P450 produz NAPQI. Em doses terapêuticas, a glutationa neutraliza o NAPQI; em overdose, a glutationa é depletada e o NAPQI liga-se a proteínas celulares, causando morte celular. A NAC restaura esses estoques, sendo uma intervenção salvadora de vidas na emergência pediátrica.

Perguntas Frequentes

Qual a dose tóxica de paracetamol em crianças?

Em pediatria, considera-se risco significativo de toxicidade hepática ingestões agudas únicas acima de 150 mg/kg a 200 mg/kg. No caso apresentado, a criança de 15 kg ingeriu 3000 mg (4 comprimidos de 750 mg), o que resulta exatamente em 200 mg/kg. Esse valor atinge o limiar crítico para intervenção imediata. É essencial sempre calcular a dose total ingerida baseada no peso real da criança para determinar a necessidade de tratamento com antídoto, independentemente da ausência de sintomas iniciais.

Como funciona a N-acetilcisteína (NAC) no tratamento?

A NAC atua como um precursor da glutationa, que é essencial para a neutralização do NAPQI, o metabólito reativo e altamente hepatotóxico do paracetamol. Além disso, a NAC pode atuar diretamente como um substituto da glutationa e possui propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias que ajudam a mitigar a lesão hepática se administrada precocemente. A eficácia é máxima quando iniciada nas primeiras 8 horas após a ingestão, prevenindo a necrose centrolobular hepática que caracteriza a toxicidade grave.

Quando usar o Nomograma de Rumack-Matthew?

O nomograma é utilizado para prever o risco de hepatotoxicidade com base na concentração plasmática de paracetamol coletada obrigatoriamente pelo menos 4 horas após a ingestão aguda. Se a concentração estiver acima da linha de tratamento (linha de 150 mcg/mL às 4h), a NAC deve ser iniciada. Em casos onde a dose ingerida é claramente tóxica (>200 mg/kg) e o acesso ao exame laboratorial é demorado ou indisponível, o tratamento com NAC não deve ser retardado para aguardar o resultado.

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