MedEvo Simulado — Prova 2026
Um homem de 45 anos, funcionário de uma oficina de funilaria e pintura automotiva há 12 anos, procura atendimento médico com queixa de dor abdominal difusa em cólica, de forte intensidade, refratária a analgésicos comuns, que piorou nas últimas semanas. Relata também constipação intestinal persistente, episódios de náuseas, irritabilidade, dificuldade de concentração e cefaleia frequente. Nega etilismo ou uso de medicações contínuas. Ao exame físico, apresenta-se hipocorado (2+/4+), com mucosa gengival exibindo uma linha azul-acinzentada próxima à inserção dentária. A palpação abdominal revela dor difusa, mas o abdome é flácido e sem sinais de irritação peritoneal. Os exames laboratoriais demonstram: Hb 9,8 g/dL, VCM 78 fL, reticulócitos 3,2%, ferro sérico 145 mcg/dL (VR: 65-175), ferritina 280 ng/mL, capacidade de ligação do ferro normal. O esfregaço de sangue periférico revela pontilhado basófilo grosseiro em eritrócitos e alguns sideroblastos em anel foram identificados na análise de medula óssea. A dosagem de ácido delta-aminolevulínico (ALA) urinário está marcadamente elevada. Com base no quadro clínico-laboratorial, o diagnóstico mais provável é:
Dor abdominal + Anemia microcítica + Pontilhado basófilo + Orla de Burton = Saturnismo.
O saturnismo (intoxicação por chumbo) mimetiza quadros de abdome agudo e porfiria, mas se diferencia pela anemia com pontilhado basófilo e história de exposição ocupacional (pintura, baterias, fundição).
O saturnismo é uma doença ocupacional clássica, mas muitas vezes subdiagnosticada devido à sua apresentação multissistêmica. O chumbo afeta o sistema nervoso (irritabilidade, cefaleia), gastrointestinal (cólica saturnina, constipação) e hematológico. A fisiopatologia envolve o bloqueio de enzimas sulfidrílicas. A elevação do ALA urinário é um marcador sensível de exposição, pois a ALA-desidratase é extremamente sensível ao chumbo. O diagnóstico diferencial com porfirias é importante, pois ambas cursam com dor abdominal e distúrbios neurológicos, mas o contexto ocupacional e as alterações hematológicas (anemia microcítica e hipocrômica com pontilhado) direcionam para a intoxicação metálica.
A Orla de Burton é uma linha azul-acinzentada na junção entre os dentes e a gengiva, causada pela precipitação de sulfeto de chumbo. É um sinal clássico, embora não patognomônico, de intoxicação crônica por chumbo, geralmente associada a uma higiene oral precária que favorece a presença de bactérias produtoras de sulfeto.
O chumbo inibe a enzima pirimidina-5'-nucleotidase, o que impede a degradação adequada do RNA ribossômico nos eritrócitos jovens. Esse RNA residual se agrega e torna-se visível ao esfregaço de sangue periférico como grânulos azulados espalhados pelo citoplasma da hemácia, conhecidos como pontilhado basófilo grosseiro.
O chumbo interfere na síntese do heme ao inibir principalmente duas enzimas: a ALA-desidratase (levando ao acúmulo de ácido delta-aminolevulínico) e a ferroquelatase (impedindo a incorporação do ferro na protoporfirina IX). Isso resulta em anemia sideroblástica, com ferro sérico normal ou elevado e presença de sideroblastos em anel na medula óssea.
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