Intoxicação por Organofosforados: Biomarcadores de Longo Prazo

UNICAMP/HC - Hospital de Clínicas da Unicamp - Campinas (SP) — Prova 2024

Enunciado

Pedro, 36a, comparece ao Pronto Atendimento referindo cefaleia, tonturas, vômitos, sudorese intensa, mal-estar geral, fraqueza e dor abdominal, que apareceram alguns minutos depois de preparar um defensivo agrícola. Exame físico: PA=110/72mmHg; FC=74bpm; oximetria de pulso=93% em ar ambiente; consciente; pálido; lacrimejante; apresentando rinorreia, sialorreia, tosse e sudorese intensas, com roupas molhadas. Pupilas mióticas; pulmões: sibilos, roncos e estertores bilateralmente; abdome: ruídos aumentados. Contexto familiar: é agricultor familiar desde os 16 anos, começou trabalhar com o pai e dois irmãos mais velhos. Na atualidade é casado com Maria de 34 anos e tem dois filhos, de 14 e 16 anos, que ajudam na lavoura de tomate, quiabo, vagem, milho e feijão, no contraturno da escola. Maria, além das atividades da casa, trabalha na lavoura e lava as roupas utilizadas pelo marido e filhos no trabalho.PARA A INVESTIGAÇÃO DA EXPOSIÇÃO DA MARIA, CITE O EXAME LABORATORIAL ESPECÍFICO OU BIOMARCADOR DE EFEITO QUE INDICA CONTATO DE LONGO PRAZO:

Alternativas

Pérola Clínica

Exposição crônica a organofosforados → Dosagem de Acetilcolinesterase eritrocitária.

Resumo-Chave

A colinesterase eritrocitária reflete a toxicidade no sistema nervoso e a exposição de longo prazo, pois sua regeneração depende da eritropoiese, ao contrário da plasmática, que se recupera rapidamente.

Contexto Educacional

A intoxicação por inibidores da colinesterase (organofosforados e carbamatos) é um problema de saúde pública relevante em áreas agrícolas. Os organofosforados ligam-se irreversivelmente à enzima, enquanto os carbamatos possuem ligação reversível. O diagnóstico clínico baseia-se na síndrome colinérgica, mas o monitoramento de populações expostas depende de biomarcadores enzimáticos. A acetilcolinesterase eritrocitária é o padrão-ouro para avaliar o impacto real no tecido nervoso e a exposição cumulativa. No manejo de saúde do trabalhador, é fundamental identificar não apenas o aplicador, mas o núcleo familiar envolvido no processo produtivo. A lavagem de EPIs e roupas de trabalho sem proteção adequada é uma via comum de contaminação crônica. O tratamento da fase aguda envolve descontaminação, suporte ventilatório e atropinização, enquanto a vigilância em saúde foca na redução do uso de agrotóxicos e na proteção coletiva.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre colinesterase plasmática e eritrocitária?

A colinesterase plasmática (pseudocolinesterase ou butyrylcholinesterase) é sintetizada no fígado e possui meia-vida curta, sendo um marcador sensível para exposição aguda recente. Já a colinesterase eritrocitária (verdadeira ou acetilcolinesterase) é idêntica à encontrada nas sinapses nervosas e sua atividade reflete a exposição crônica ou de longo prazo, pois a recuperação dos níveis depende da renovação da massa eritrocitária (aproximadamente 120 dias).

Por que Maria deve ser investigada se não aplica o veneno diretamente?

A exposição a praguicidas em contextos de agricultura familiar ocorre não apenas pela aplicação direta, mas também pelo contato secundário. Maria está exposta ao lavar roupas contaminadas do marido e filhos, além de trabalhar na lavoura onde os resíduos persistem. Esse cenário configura uma exposição ocupacional e ambiental indireta que exige monitoramento biológico para prevenir efeitos crônicos neurotóxicos.

Quais os sinais clínicos de intoxicação colinérgica aguda?

A síndrome colinérgica manifesta-se por efeitos muscarínicos (miose, bradicardia, sialorreia, lacrimejamento, broncorreia, vômitos e diarreia) e nicotínicos (fasciculações, fraqueza muscular e taquicardia inicial). O quadro apresentado por Pedro é clássico de intoxicação aguda grave, exigindo estabilização imediata e uso de atropina como antídoto para reverter os efeitos muscarínicos.

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