USP/Ribeirão Preto - Exame Revalida — Prova 2019
Há 03 semanas um lactente de 08 meses de idade, previamente hígido está apresentando diarreia de fezes líquidas de odor azedo, distensão abdominal, flatulência excessiva, assadura perianal e perda progressiva de peso. No início do quadro, durante 05 dias, apresentou vômitos e febre alta, além de fezes líquidas, algumas vezes com raias de sangue. Antecedentes alimentares: aleitamento materno por 2 meses; introduziu mamadeira com fórmula com 1 mês e meio seguida de papas salgadas com 4 meses. Alimentação atual: 04 mamadeiras de 200 mL de leite de vaca com açúcar ao dia, papa de legumes com macarrão e carne 2 vezes ao dia, frutas e suco de frutas.De acordo com os dados clínicos fornecidos acima, responda:a) Qual é o diagnóstico mais provável? b) Qual é a conduta mais indicada em relação ao tratamento medicamentoso desse paciente nesse momento?c) Qual é a conduta mais indicada em relação à alimentação desse paciente nesse momento?
Diarreia explosiva + fezes ácidas + assadura perianal após GECA = Intolerância à Lactose Secundária.
A lesão da borda em escova do enterócito após infecção viral ou bacteriana reduz a produção de lactase, levando à fermentação colônica da lactose e sintomas osmóticos.
A intolerância à lactose secundária é uma complicação comum de diarreias infecciosas prolongadas em pediatria. O quadro clínico clássico envolve a persistência de fezes líquidas, explosivas e ácidas após a fase aguda da infecção. A presença de substâncias redutoras nas fezes e pH fecal baixo (< 5.5) corroboram o diagnóstico, embora a clínica seja soberana. O manejo foca na reabilitação nutricional. É fundamental evitar o uso prolongado de dietas restritivas sem necessidade, pois a produção de lactase costuma retornar ao normal em poucas semanas após a regeneração do epitélio intestinal. O uso de zinco é recomendado pela OMS em quadros de diarreia para acelerar a recuperação da mucosa.
Durante um episódio de gastroenterite aguda, ocorre lesão da mucosa intestinal e destruição dos enterócitos. Como a enzima lactase está localizada no ápice das vilosidades (borda em escova), ela é a primeira a ser perdida. Sem lactase, a lactose não é hidrolisada no intestino delgado, chegando ao cólon onde é fermentada por bactérias, produzindo ácido lático e gases, o que gera diarreia osmótica, flatulência e fezes de pH ácido.
A intolerância à lactose manifesta-se com sintomas gastrointestinais localizados (diarreia osmótica, distensão, fezes ácidas que causam hiperemia perianal importante) e geralmente é secundária a uma agressão prévia. Já a APLV é uma reação imunológica que pode apresentar sintomas sistêmicos, como urticária, angioedema, ou manifestações digestivas como proctocolite (sangue vivo nas fezes) e vômitos persistentes, independentemente de infecções prévias.
A conduta principal é a redução ou exclusão temporária da lactose da dieta para permitir a recuperação da mucosa intestinal. Em lactentes em uso de fórmula, substitui-se por fórmula isenta de lactose por um período de 2 a 4 semanas. Se o paciente estivesse em aleitamento materno exclusivo, a recomendação seria manter o peito, pois o leite materno possui fatores de reparo tecidual que compensam a carga de lactose.
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