Urocultura Contaminada em Crianças: Como Agir?

Santa Casa de Ribeirão Preto (SP) — Prova 2022

Enunciado

Menina, 3 anos de idade, diminuiu o número de micções e queixa-se de dor abdominal antes de urinar, e dor e ardor ao urinar, há 2 dias. Hoje apresentou temperatura de 38 ºC e reduziu um pouco a alimentação. Usa fralda noturna e os genitais e a região perianal estão hiperemiados. Foram colhidos exames de urina I e urocultura com antibiograma por saco coletor. No resultado da análise de urina, há 100000 leucócitos/mm³, 12000 hemacias/mm³ e nitrito positivo. Foi medicada com cefalosporina de 1ª geração. O resultado da urocultura foi liberado no quinto dia de tratamento, com crescimento de 50000 UFC de E. coli resistente à ampicilina e 30000 UFC de Proteus sp, resistente às cefalosporinas. Está bem, sem queixas. A conduta adequada ao quadro é:

Alternativas

  1. A) considerar que houve contaminação da urocultura, suspender o tratamento antibiótico por 48 horas e fazer nova coleta, se possível, de jato médio, para realização de urina I e urocultura.
  2. B) considerar que houve contaminação da urocultura, completar o tratamento prescrito, realizar exame de urina I e urocultura após 48 horas do fim de tratamento e ultrassonografia de rins e vias urinárias.
  3. C) trocar o antibiótico por outro, ao qual as duas bactérias identificadas tenham sensibilidade no antibiograma, completando 10 dias de tratamento no total.
  4. D) trocar o antibiótico por outro, ao qual as duas bactérias identificadas tenham sensibilidade no antibiograma, completando 10 dias de tratamento com o novo medicamento prescrito.
  5. E) suspender o tratamento, pois, provavelmente, houve contaminação da coleta de urina e o quadro apresentado é de vulvovaginite

Pérola Clínica

ITU pediátrica + Urocultura por saco coletor com múltiplos germes e baixa UFC + Melhora clínica com ATB empírico → Contaminação provável, manter ATB e investigar após.

Resumo-Chave

Em crianças, a urocultura coletada por saco coletor tem alta taxa de contaminação. Se a criança apresenta melhora clínica significativa com o tratamento empírico, mesmo com uma urocultura mostrando múltiplos germes ou baixa contagem de colônias e resistência ao antibiótico em uso, é provável que a urocultura esteja contaminada. Nesses casos, a conduta é completar o tratamento e investigar o trato urinário após o término, sem trocar o antibiótico desnecessariamente.

Contexto Educacional

A infecção do trato urinário (ITU) em crianças é uma condição comum que exige atenção, pois pode levar a danos renais se não tratada adequadamente. O diagnóstico é baseado na presença de sintomas clínicos e na confirmação por urocultura. No entanto, a coleta de urina em crianças pequenas é um desafio, e o uso de saco coletor é frequentemente associado a altas taxas de contaminação, o que pode levar a resultados laboratoriais enganosos. Neste caso, a menina de 3 anos apresenta sintomas clássicos de ITU e uma urina I sugestiva (leucocitúria, nitrito positivo). Ela foi medicada com cefalosporina de 1ª geração e, no quinto dia de tratamento, está bem e sem queixas. A urocultura, coletada por saco coletor, mostrou crescimento de dois germes com contagens relativamente baixas (50.000 e 30.000 UFC) e resistência aos antibióticos em uso. A melhora clínica da paciente, apesar dos resultados da urocultura, é o fator mais importante a ser considerado. A conduta mais adequada é considerar a urocultura como contaminada devido ao método de coleta, à presença de múltiplos germes com baixa contagem e, principalmente, à melhora clínica da criança. Não se deve trocar o antibiótico se a criança está respondendo bem ao tratamento. O curso do antibiótico deve ser completado, e uma ultrassonografia de rins e vias urinárias deve ser realizada para investigar possíveis anomalias anatômicas que predispõem a ITU. Uma nova urocultura pode ser coletada após o término do tratamento para confirmar a erradicação da infecção, se houver persistência de sintomas ou preocupação.

Perguntas Frequentes

Quais são os critérios para considerar uma urocultura por saco coletor contaminada em crianças?

Uma urocultura por saco coletor é frequentemente contaminada. Sinais de contaminação incluem crescimento de múltiplos germes, contagens de colônias abaixo de 100.000 UFC/mL (especialmente se a criança está clinicamente bem), ou a presença de flora mista. A melhora clínica do paciente sob tratamento empírico é um forte indicativo de contaminação, mesmo com resultados laboratoriais 'positivos' duvidosos.

Por que a ultrassonografia de rins e vias urinárias é importante após uma ITU em crianças?

A ultrassonografia de rins e vias urinárias é crucial para investigar anomalias anatômicas que predispõem a infecções urinárias de repetição ou pielonefrite, como refluxo vesicoureteral, hidronefrose ou outras malformações. A identificação precoce dessas condições permite intervenção para prevenir danos renais a longo prazo.

Qual a importância da correlação clínico-laboratorial no manejo da ITU pediátrica?

A correlação clínico-laboratorial é fundamental. Se a criança apresenta sintomas de ITU, mas melhora significativamente com o tratamento empírico, a resposta clínica deve guiar a conduta, mesmo que a urocultura (especialmente se coletada por método propenso à contaminação) sugira resistência ou múltiplos germes. O tratamento não deve ser alterado apenas por um resultado laboratorial duvidoso se a clínica é favorável.

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