Delirium em Idosos: Diagnóstico e Conduta na Enfermaria

TECM Teórica - Prova Teórica de Clínica Médica — Prova 2022

Enunciado

Paciente de 82 anos, internado para tratamento de pneumonia comunitária, em uso de levofloxacino. No quarto dia de internação na enfermaria, inicia quadro de confusão mental. Afebril há 48 horas, com resolução da febre e tosse. Familiares informam que o paciente não dormiu durante a noite e que está falando sobre pessoas que já morreram e vendo animais que não existem no quarto. Durante o exame, você percebe que o paciente está desatento. Exame de pares cranianos, força motora e reflexos osteotendíneos sem alterações. Urina em bolsa coletora de cateter vesical de demora com aspecto normal. Paciente era previamente independente e nunca apresentou quadro confusional semelhante. O diagnóstico e conduta mais adequados para o caso descrito são, respectivamente:

Alternativas

  1. A) Demência / Coletar propedêutica laboratorial (ex. Sorologia para HIV, VDRL, vitamina B12...) e realizar tomografia computadorizada de crânio.
  2. B) Delirium / Coletar culturas e iniciar Piperacilina-Tazobactam, pois o quadro sugere falência de antibioticoterapia com o uso do levofloxacino.
  3. C) Demência / Realizar tomografia de crânio e punção lombar e, caso estejam normais, solicitar ressonância magnética de encéfalo.
  4. D) Delirium / Controle de fatores de risco (ex. Reorientação frequente do paciente, avaliar retirada de cateter vesical de demora...).

Pérola Clínica

Início agudo + desatenção + curso flutuante = Delirium. Tratar a causa e manejar o ambiente.

Resumo-Chave

O delirium é uma emergência médica geriátrica caracterizada por alteração aguda da atenção e cognição, frequentemente desencadeada por infecções, fármacos ou dispositivos invasivos.

Contexto Educacional

O delirium é uma síndrome de etiologia multifatorial que reflete uma vulnerabilidade cerebral prévia exposta a fatores precipitantes. Em idosos hospitalizados, a pneumonia e o uso de quinolonas (como o levofloxacino) são gatilhos comuns. O diagnóstico é clínico, sendo o Confusion Assessment Method (CAM) a ferramenta mais validada, exigindo a presença de início agudo/curso flutuante E desatenção, somados a pensamento desorganizado OU alteração do nível de consciência. O manejo deve focar na identificação e tratamento da causa base e na implementação de protocolos de prevenção e controle. O uso de contenção física ou química deve ser evitado ao máximo, reservado apenas para situações de risco iminente ao paciente ou equipe, priorizando sempre a reorientação e a otimização do ambiente hospitalar para mimetizar o ambiente domiciliar.

Perguntas Frequentes

Como diferenciar delirium de demência na prática clínica?

A principal diferença reside no tempo de instalação e na atenção. O delirium tem início agudo (horas a dias), curso flutuante e a desatenção é o sintoma cardinal. A demência (Transtorno Neurocognitivo Maior) tem início insidioso, progressão lenta ao longo de meses ou anos, e a atenção costuma ser preservada até estágios avançados. No caso clínico, a mudança aguda em um paciente previamente independente sela o diagnóstico de delirium.

Quais são as medidas não farmacológicas prioritárias no delirium?

As intervenções não farmacológicas são a base do tratamento. Incluem a reorientação frequente (calendários, relógios, presença de familiares), higiene do sono (evitar ruídos e luz à noite), mobilização precoce, remoção de dispositivos desnecessários (cateteres, sondas), e garantia de uso de próteses auditivas e visuais. Essas medidas reduzem a duração e a gravidade do quadro confusional.

Por que o cateter vesical de demora deve ser avaliado no delirium?

Dispositivos invasivos como o cateter vesical de demora (CVD) são potentes gatilhos para delirium em idosos, devido ao desconforto, restrição de mobilidade e risco de infecção urinária. No paciente estável e sem indicação precisa de monitorização rigorosa de débito urinário ou obstrução infravesical, a retirada do CVD é uma conduta prioritária para a resolução do quadro confusional.

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