ICFEP: Manejo da Congestão e Hipertensão Arterial

SURCE - Sistema Único de Residência do Ceará — Prova 2022

Enunciado

Homem, 70 anos, vem em consulta ambulatorial queixando-se de dispneia progressiva nos últimos 2 meses e, agora, em repouso. Relata também edema de membros inferiores e acorda com falta de ar durante a noite. É hipertenso e obeso. Fez um ECG, que revelou sinais de sobrecarga ventricular esquerda e um ecocardiograma, com FEVE = 65%, disfunção diastólica, pressão sistólica na artéria pulmonar de 40mmHg e sinais de aumento de pressões no enchimento do VE (E/e’ > 9). Está em uso de Losartana 50mg 2 vezes ao dia e Hidroclorotiazida 25mg cedo. Ao exame físico: PA = 150 x 90mmHg, FC = 80bpm, crepitações pulmonares em terço inferior bilateralmente, ausência de sopros cardíacos, edema de membros inferiores de 2+/4+. LEGENDA: VE = Ventrículo Esquerdo; FEVE = Fração de Ejeção do VE.Qual é sua conduta inicial?

Alternativas

  1. A) Associar betabloqueador e diurético de alça e manter o restante dos medicamentos.
  2. B) Orientar perda de peso, associar hidralazina via oral e encaminhar ao pneumologista.
  3. C) Introduzir antagonista da aldosterona e diurético de alça e manter os outros remédios.
  4. D) Trocar tiazídico por diurético de alça e associar bloqueador de canal de cálcio à receita.

Pérola Clínica

ICFEP com congestão e HAS refratária → otimizar diurese (diurético de alça) e controle pressórico (BCC).

Resumo-Chave

O paciente apresenta insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP), evidenciada por FEVE normal, disfunção diastólica e aumento das pressões de enchimento do VE. A congestão (dispneia, edema, crepitações) e a hipertensão arterial sistêmica (PA 150x90) são os principais alvos terapêuticos. A troca do tiazídico por um diurético de alça é mais eficaz para controlar a congestão, e a adição de um bloqueador de canal de cálcio auxilia no controle pressórico e pode ter efeitos benéficos na função diastólica.

Contexto Educacional

A insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP) é uma síndrome clínica complexa, caracterizada por sintomas de insuficiência cardíaca na presença de FEVE normal ou levemente reduzida. A fisiopatologia central envolve disfunção diastólica, ou seja, a incapacidade do ventrículo esquerdo de relaxar e se encher adequadamente, levando a pressões de enchimento elevadas. Comorbidades como hipertensão arterial, obesidade, diabetes e doença renal crônica são prevalentes e contribuem significativamente para o desenvolvimento e progressão da ICFEP. O diagnóstico é desafiador e requer uma combinação de achados clínicos, ecocardiográficos (disfunção diastólica, aumento de E/e') e biomarcadores (BNP elevado). O manejo da ICFEP difere da IC com fração de ejeção reduzida (ICFER), pois não há terapias que comprovadamente reduzam a mortalidade em todos os pacientes. O foco principal é o controle rigoroso das comorbidades e o alívio sintomático da congestão. No caso apresentado, o paciente tem HAS mal controlada (PA 150x90) e sinais de congestão (dispneia, edema, crepitações), apesar de estar em uso de losartana e hidroclorotiazida. A conduta inicial deve visar otimizar o controle da congestão e da pressão arterial. A troca do diurético tiazídico (hidroclorotiazida) por um diurético de alça (como furosemida) é apropriada, pois os diuréticos de alça são mais potentes e eficazes para reduzir o volume intravascular e aliviar os sintomas de congestão em pacientes com ICFEP e sobrecarga volêmica. A associação de um bloqueador de canal de cálcio (BCC) é uma boa escolha para o controle adicional da hipertensão, especialmente considerando que os BCCs podem melhorar a função diastólica e não têm os efeitos negativos na contratilidade miocárdica que os beta-bloqueadores podem ter em alguns pacientes com disfunção diastólica pura. Outras terapias, como antagonistas da aldosterona, podem ser consideradas posteriormente, mas a prioridade é o controle sintomático e da pressão arterial.

Perguntas Frequentes

Quais são os critérios diagnósticos para insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEP)?

Os critérios incluem sintomas e sinais de insuficiência cardíaca, fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) ≥ 50%, evidência de disfunção diastólica e/ou aumento das pressões de enchimento do VE (ex: E/e' > 9), e níveis elevados de peptídeos natriuréticos (BNP ou NT-proBNP).

Por que a troca de um diurético tiazídico por um diurético de alça é indicada neste caso de ICFEP?

O paciente apresenta congestão significativa (dispneia em repouso, edema, crepitações) e o tiazídico pode não ser potente o suficiente para controlar o volume. Diuréticos de alça, como a furosemida, são mais eficazes na remoção de grandes volumes de líquido, sendo preferíveis em pacientes com sintomas de congestão mais pronunciados.

Qual o papel dos bloqueadores de canal de cálcio no tratamento da ICFEP?

Os bloqueadores de canal de cálcio (BCCs) podem ser úteis na ICFEP para controlar a hipertensão arterial e a frequência cardíaca (especialmente os não diidropiridínicos, como verapamil e diltiazem), o que pode melhorar o enchimento diastólico. Eles não têm um impacto direto na mortalidade, mas ajudam no controle sintomático e das comorbidades.

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