UFRJ/HUCFF - Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (RJ) — Prova 2025
Menino, 4 anos, asmático, apresentou vários episódios de crise nos últimos meses. Está em uso de fluticasona 2 sprays em cada narina 2x/dia desde os 3 anos. No momento, é admitido no Setor de Emergência com diminuição do nível de consciência após crise convulsiva. Mãe refere que queixa-se de cansaço, náusea e perda do apetite, Exame físico: fácies arredondada; hidratado; corado; hipoativo; hipotensão arterial leve. Exames laboratoriais: glicemia = 27mg%; linfocitose com eosinofilia. Há melhora do nível de consciência após reposição glicose venosa. A hipótese diagnóstica mais provável é:
Uso crônico de corticoide + Hipoglicemia + Hipotensão + Eosinofilia = Insuficiência Adrenal.
O uso prolongado de corticoides (mesmo inalatórios ou nasais) pode suprimir o eixo HPA, levando à crise adrenal aguda em situações de estresse ou doença intercorrente.
A insuficiência adrenal iatrogênica é uma complicação potencialmente fatal da corticoterapia crônica. Em pediatria, o uso de fluticasona ou outros corticoides potentes para controle de asma ou rinite pode levar ao fenótipo cushingóide (fácies em lua cheia) e, simultaneamente, à supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA). O paciente torna-se dependente do corticoide exógeno para manter a homeostase. Durante episódios de estresse agudo (infecções, cirurgias, traumas), a demanda metabólica por cortisol aumenta drasticamente. Se a dose de corticoide não for ajustada ('dose de estresse') ou se houver falha na produção endógena, o paciente entra em crise adrenal, manifestando-se com choque, alteração do nível de consciência e hipoglicemia refratária. A presença de eosinofilia no hemograma é uma pista diagnóstica valiosa para insuficiência adrenal.
Doses elevadas ou uso prolongado de corticoides exógenos (mesmo inalatórios ou nasais) exercem um feedback negativo no hipotálamo e na hipófise, reduzindo a produção de CRH e ACTH. Isso leva à atrofia das glândulas adrenais, que perdem a capacidade de produzir cortisol endógeno em situações de estresse.
Os achados clássicos incluem hipoglicemia grave (pela falta de efeito contrarregulador do cortisol), hipotensão arterial, linfocitose e eosinofilia relativa. Na insuficiência adrenal secundária (por supressão do eixo), os eletrólitos podem estar normais, pois a aldosterona é regulada principalmente pelo sistema renina-angiotensina.
O tratamento imediato envolve a correção da hipoglicemia com glicose venosa e a administração de hidrocortisona em dose de estresse (ataque venoso seguido de manutenção). A reposição volêmica com solução salina também é fundamental para corrigir a hipotensão.
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