UFG/HC - Hospital das Clínicas da UFG - Goiânia (GO) — Prova 2020
Paciente de um ano e seis meses, do sexo masculino, vem ao consultório para consulta de rotina. Trouxe um exame de urina e urocultura para o médico avaliar. À anamnese, não apresenta queixa. Mãe nega febre, nega irritabilidade. O lactente apresenta apetite preservado, alimentando-se bem. Está com adequado ganho pôndero- estatural. Peso e estatura entre z score 0 e 1, ascendente. Nega alterações urinárias, refere urina clara, com volume adequado. Não apresenta controle esfincteriano. Ao exame físico, nada digno de nota e apresenta pressão arterial abaixo do P90. O exame de urina foi coletado com saco coletor com assepsia realizada de forma adequada. EAS - densidade: 1.010, PH:6.0; nitrito:negativo; proteínas: ausente; hemoglobina: ausente; leucócitos: 60.000/ml e hemácias: 2.000/ml. UROCULTURA - Escherichia coli: 5.000 UFC/ml. Nesse caso, qual será a conduta adequada?
Lactente assintomático + urocultura saco coletor < 100.000 UFC/ml → Não tratar, não repetir exames invasivos.
Em crianças assintomáticas, a leucocitúria isolada com urocultura por saco coletor mostrando baixa contagem de colônias (especialmente < 100.000 UFC/ml) é frequentemente resultado de contaminação e não indica infecção do trato urinário (ITU). Nesses casos, a conduta é observação e orientações gerais, sem necessidade de tratamento ou exames invasivos.
A infecção do trato urinário (ITU) é uma das infecções bacterianas mais comuns na infância, e seu diagnóstico preciso é fundamental para evitar complicações como cicatrizes renais. No entanto, o diagnóstico em lactentes pode ser desafiador devido à inespecificidade dos sintomas e à dificuldade na coleta de urina. A urocultura é o padrão-ouro para o diagnóstico, mas a forma de coleta impacta diretamente a interpretação dos resultados. A coleta de urina por saco coletor é conveniente, mas possui alta taxa de contaminação, especialmente em meninas. Por isso, os critérios de positividade são mais rigorosos: ≥ 100.000 UFC/ml de um único patógeno, preferencialmente com piúria. No caso apresentado, a urocultura com 5.000 UFC/ml de E. coli, mesmo com leucocitúria, em uma criança assintomática e com coleta por saco, é altamente sugestiva de contaminação e não de ITU. Em crianças assintomáticas, a bacteriúria ou leucocitúria isolada sem sintomas não justifica tratamento antibiótico. A ITU assintomática não é uma condição que requer intervenção na maioria dos casos pediátricos, exceto em situações muito específicas. A conduta adequada é tranquilizar os pais e fornecer orientações gerais de higiene, sem a necessidade de repetir exames invasivos ou iniciar antibióticos, prevenindo assim a resistência antimicrobiana e o estresse desnecessário para a criança e a família.
Para urocultura coletada por saco coletor, o diagnóstico de ITU em lactentes exige uma contagem de colônias ≥ 100.000 UFC/ml de um único patógeno, preferencialmente com piúria no EAS. Contagens menores são frequentemente consideradas contaminação.
A leucocitúria isolada em uma criança assintomática, especialmente com urocultura negativa ou com baixa contagem de colônias, não é suficiente para o diagnóstico de ITU. Pode ser causada por irritação local, febre ou contaminação da amostra, e o tratamento desnecessário pode levar a efeitos adversos e resistência antimicrobiana.
O cateterismo vesical é indicado para confirmar o diagnóstico de ITU em lactentes com suspeita clínica e urocultura inicial inconclusiva ou contaminada, ou quando há alta suspeita de ITU e a coleta por saco coletor não é confiável. Não é indicado em crianças assintomáticas com urocultura de saco coletor com baixa contagem.
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