Grupo OPTY - Rede de Oftalmologia — Prova 2024
Clara, uma adolescente de 16 anos, comparece à unidade básica de saúde (UBS) em busca de atendimento médico. Na recepção, o atendente responsável pelo acolhimento verifica o endereço de Clara, confirma que ela reside na área de abrangência da UBS e a encaminha para a sala da equipe de saúde da família de sua área. Lá, ela é atendida por uma enfermeira da equipe, que, após coletar informações sobre a queixa e sua duração, bem como aferir os sinais vitais, reconhece sinais de gravidade. Diante disso, a enfermeira aloca a paciente em uma maca na sala de medicação e chama imediatamente o médico da equipe, que a atende prontamente. Clara relata que está sentindo dor na região hipogástrica e disúria há cerca de três dias, com uma piora gradual. Ela teve calafrios durante a última noite, mas não percebeu que poderia estar com febre. A paciente está mais preocupada com as dores e com um atraso menstrual. Ela não consegue fornecer a data da última menstruação, mas acredita que tenha ocorrido antes do nascimento de seu irmão, que hoje tem três meses. Ao realizar o exame físico, a equipe de saúde observa que Clara está sonolenta, febril, eupneica, sudoreica, com livedo e mal perfundida. Os pulsos estão simétricos, as bulhas cardíacas são normofonéticas, mas a paciente apresenta taquicardia e um sopro sistólico. O exame abdominal revela dor à palpação na região hipogástrica. Além disso, foram identificadas equimoses em diferentes estágios de evolução em seu tórax e abdome. Quando questionada sobre as lesões equimóticas, Clara começa a chorar e pede para não abordar mais o assunto.Tendo como base o caso acima, a política nacional de humanização, os atributos e funções da atenção primária e conhecimentos correlatos, julgue o item.O foco infeccioso de Clara é uma causa significativa de sepse na população em geral. A gestação é um fator de risco importante para esse quadro, o que justifica a necessidade de rastreamento dessa afecção nessa população.
Gestação → ↑ risco de pielonefrite e sepse urinária; rastreio de bacteriúria assintomática é mandatório.
A estase urinária e alterações fisiológicas da gestação facilitam a ascensão bacteriana, tornando a ITU uma causa prevalente de sepse materna, exigindo rastreio sistemático.
A sepse de foco urinário na gestação representa uma das principais causas de morbimortalidade materna evitável. Durante a gravidez, as alterações hidrodinâmicas e hormonais favorecem a migração de patógenos do trato urinário inferior para o superior. O caso clínico de Clara ilustra a gravidade dessa condição, onde sintomas urinários negligenciados evoluíram para um quadro de choque séptico, evidenciado por taquicardia, livedo, má perfusão e alteração do nível de consciência. Além do aspecto infeccioso, o caso destaca a importância da abordagem humanizada e da vigilância contra a violência interpessoal, dada a presença de equimoses em diferentes estágios. Na Atenção Primária, o rastreamento sistemático da bacteriúria assintomática por meio da urocultura é a principal estratégia preventiva. O tratamento imediato de qualquer infecção urinária na gestante é mandatório para prevenir a pielonefrite, que é o gatilho mais comum para a sepse obstétrica de origem não pélvica.
A gravidez induz alterações fisiológicas significativas no trato urinário, como a dilatação dos ureteres e da pelve renal mediada pela progesterona, que reduz o tônus muscular e o peristaltismo ureteral. Além disso, o útero gravídico exerce compressão mecânica sobre a bexiga e ureteres, resultando em estase urinária. Essas condições, somadas à glicosúria e aminoacidúria fisiológicas, criam um ambiente propício para a proliferação bacteriana. Consequentemente, uma bacteriúria assintomática, que em mulheres não grávidas raramente evolui para complicações graves, tem um risco de até 40% de progredir para pielonefrite aguda na gestante. A pielonefrite na gestação é uma emergência médica associada a complicações maternas graves, como sepse, choque séptico e insuficiência respiratória, além de desfechos obstétricos desfavoráveis, como trabalho de parto prematuro.
O diagnóstico de sepse na gestação apresenta desafios únicos devido às alterações fisiológicas normais da gravidez, que mimetizam sinais de infecção, como taquicardia e leucocitose. O uso do escore qSOFA isoladamente pode ser menos sensível nesta população. Por isso, recomenda-se o uso de ferramentas adaptadas, como o escore SOS (Sepsis in Obstetrics Score) ou o escore de Alerta Precoce Obstétrico (MEOWS). A presença de disfunção orgânica em vigência de infecção suspeita ou confirmada define a sepse. Na gestante com foco urinário, a progressão para choque séptico pode ser rápida, exigindo reconhecimento precoce de sinais de hipoperfusão, como o livedo e a sonolência. O manejo envolve estabilização hemodinâmica imediata, coleta de culturas e início de antibioticoterapia de amplo espectro na primeira hora.
O rastreamento de bacteriúria assintomática é uma recomendação de nível A de evidência na assistência pré-natal. Consiste na realização de urocultura com antibiograma no primeiro trimestre da gestação, idealmente entre a 12ª e 16ª semana. Caso o resultado seja positivo, o tratamento deve ser instituído mesmo na ausência de sintomas, seguido de uroculturas de controle mensais até o final da gestação. Essa prática é fundamental porque a bacteriúria assintomática não tratada evolui para pielonefrite em até 30-40% dos casos, aumentando significativamente o risco de sepse materna, parto prematuro e baixo peso ao nascer. O rastreio sistemático é uma das intervenções de melhor custo-benefício na redução da mortalidade materna relacionada a causas infecciosas no pré-natal.
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