SUS-BA - Sistema Único de Saúde da Bahia — Prova 2025
Menina, 2 anos de idade, é levada ao ambulatório pediátrico, encaminhada pela UBS, por apresentar infecções respiratórias recorrentes, incluindo otites frequentes. A mãe relata que desde o nascimento a menor apresenta espirros e coriza constantes. Além disso, já ocorreram vários quadros de pneumonia e um de diarreia, sem necessidade de internação. Nega alterações dermatológicas. Foi amamentada até os 18 meses e, atualmente, tem dieta semelhante à da família, com proteínas animais, frutas e legumes, diariamente. Reside em rua calçada, com saneamento; nega mofo e umidade em casa. Faz acompanhamento na UBS, mas continua apresentando infecções muito frequentes, que não respondem bem aos tratamentos convencionais. É filha única, não frequenta creche e não há história familiar. Ao exame físico, é uma criança em bom estado geral e nutricional, sem outras alterações no momento, exceto condutos auditivos hiperemiados. Diante desse caso clínico, indique o exame mais útil para confirmar a suspeita clínica:
Infecções sinopulmonares e gastrointestinais recorrentes → Solicitar dosagem de IgG, IgA e IgM.
A triagem inicial para suspeita de imunodeficiências primárias (erros inatos da imunidade) deve focar no compartimento humoral, responsável pela maioria dos casos clínicos através da quantificação de anticorpos.
Os erros inatos da imunidade (EII) compreendem um grupo heterogêneo de doenças genéticas que afetam o desenvolvimento ou a função do sistema imunológico. O quadro clínico clássico envolve infecções que são 'demais, de gravidade incomum, por germes oportunistas ou de difícil tratamento'. A abordagem diagnóstica é escalonada, iniciando-se pelo hemograma (avaliação quantitativa de neutrófilos e linfócitos) e dosagem de imunoglobulinas.\n\nNa pediatria, é fundamental diferenciar o 'resfriado comum' recorrente em crianças que frequentam creche (exposição viral aumentada) de uma imunodeficiência real. A paciente do caso, apesar de não frequentar creche, apresenta complicações como pneumonia e otite que não respondem bem ao tratamento, o que eleva o índice de suspeição para defeitos de anticorpos. O tratamento precoce, muitas vezes com reposição de imunoglobulina humana intravenosa ou subcutânea, é vital para prevenir sequelas estruturais, como bronquiectasias.
A suspeita deve surgir diante de sinais de alerta como: duas ou mais pneumonias no último ano, oito ou mais otites no último ano, estomatites de repetição ou monilíase por mais de dois meses após o primeiro ano de vida, abscessos profundos recorrentes, e infecções sistêmicas graves (meningite, sepse). Além disso, o atraso no crescimento (failure to thrive) e a história familiar de imunodeficiência são marcadores cruciais. No caso clínico, a recorrência de otites, pneumonias e diarreia, associada à má resposta aos tratamentos convencionais, aponta fortemente para um defeito na imunidade humoral ou celular, exigindo investigação laboratorial imediata.
As deficiências de anticorpos (imunidade humoral) representam cerca de 50-70% de todos os erros inatos da imunidade. A dosagem sérica de IgG, IgA, IgM e, às vezes, IgE, permite identificar condições como a Imunodeficiência Comum Variável, a Agamaglobulinemia ligada ao X e a Deficiência Seletiva de IgA. É um exame de baixo custo, amplamente disponível e que fornece o diagnóstico ou direciona para testes funcionais (como a resposta vacinal). Diferente da IgE isolada, que avalia atopia, as outras classes medem a capacidade de defesa contra patógenos encapsulados e vírus, justificando sua primazia na investigação de quadros infecciosos.
A dosagem de IgE total tem utilidade limitada na triagem de imunodeficiências, exceto em casos muito específicos como a Síndrome de Hyper-IgE (Síndrome de Job), onde os níveis estão extremamente elevados e associados a abscessos 'frios' e eczemas graves. Para a maioria das crianças com infecções respiratórias, a IgE elevada sugere atopia (asma, rinite), que pode mimetizar infecções recorrentes devido à inflamação crônica das mucosas, mas não explica quadros de pneumonia bacteriana ou diarreia crônica. Portanto, a IgE não substitui a avaliação das imunoglobulinas de defesa (G, A, M).
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