Santa Casa de Belo Horizonte (MG) — Prova 2026
Recém-nascido (39 semanas de idade gestacional, peso adequado para idade gestacional, sem contexto infeccioso) de 21 dias, é trazido à maternidade devido à icterícia, zona II de Kramer. Mãe refere aleitamento materno exclusivo e nega colúria e acolia fecal, febre, inapetência, irritabilidade ou quaisquer outras queixas. Exame físico, exceto pela icterícia, sem alterações, ganho de peso adequado. Dosada bilirrubina total de 6,3mg/dL sendo 0,7mg/dL direta e 5,6mg/dL indireta, restante do perfil hepático, hemograma e reticulócitos sem alterações. Sobre o quadro descrito, assinale a alternativa CORRETA:
RN saudável + ganho de peso + icterícia tardia (BI) + aleitamento exclusivo = Icterícia do Leite Materno.
A icterícia do leite materno é uma condição benigna e autolimitada que ocorre em recém-nascidos amamentados, caracterizada por hiperbilirrubinemia indireta persistente sem sinais de doença.
A icterícia do leite materno é uma forma de hiperbilirrubinemia indireta não hemolítica. A fisiopatologia exata ainda é discutida, mas envolve a presença de fatores no leite humano (como pregnane-3-alpha, 20-beta-diol e ácidos graxos livres) que inibem a enzima glucuroniltransferase hepática, além de altas concentrações de beta-glucuronidase, que desconjuga a bilirrubina no lúmen intestinal, aumentando sua reabsorção. Clinicamente, o lactente apresenta-se vigoroso, com excelente sucção e curvas de crescimento normais. O manejo consiste na orientação familiar sobre a natureza benigna da condição. Historicamente, utilizava-se a interrupção da amamentação por 24-48h como teste diagnóstico, mas essa prática caiu em desuso por interferir desnecessariamente no aleitamento. O foco deve ser a vigilância clínica e a garantia de que não há sinais de colestase (bilirrubina direta elevada) ou hemólise.
A icterícia do 'aleitamento materno' (ou da amamentação) ocorre na primeira semana de vida e deve-se à baixa ingestão calórica e desidratação relativa, aumentando a circulação entero-hepática. Já a icterícia do 'leite materno' é mais tardia, iniciando-se após a primeira semana (pico entre 10-15 dias), ocorrendo em bebês que mamam bem e ganham peso. Esta última é causada por substâncias no próprio leite (como a beta-glucuronidase) que facilitam a reabsorção intestinal de bilirrubina.
Diferente da icterícia fisiológica, que geralmente desaparece em duas semanas, a icterícia do leite materno pode persistir por um período prolongado, estendendo-se por até 3 meses de vida. Desde que os níveis de bilirrubina não atinjam patamares de neurotoxicidade (o que é raro nesta condição) e o bebê mantenha bom estado geral e desenvolvimento, a conduta é apenas observação e reforço da manutenção do aleitamento materno.
O diagnóstico é clínico e de exclusão. Um recém-nascido com icterícia tardia, mas com ganho ponderal adequado, fezes coradas (sem acolia), urina clara (sem colúria) e exames laboratoriais mostrando apenas aumento de bilirrubina indireta (com BI < 12-15 mg/dL na maioria dos casos) preenche os critérios. A ausência de hemólise (reticulócitos normais) e de sinais infecciosos afasta outras causas graves, confirmando a benignidade do quadro.
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