Icterícia Colestática Neonatal: Diagnóstico e Manejo

Santa Casa de Belo Horizonte (MG) — Prova 2022

Enunciado

A mãe relata ao pediatra do posto de saúde que seu filho de 30 dias de vida iniciou com quadro de icterícia aos dois dias de vida, com piora progressiva, associado à colúria e à acolia fecal. A criança está em aleitamento materno exclusivo, com ganho de peso satisfatório no primeiro mês. Na história pregressa, foi nascido a termo, peso ao nascimento de 3050 g, comprimento 50 cm, Apgar 9/10, sem intercorrências. Foram solicitados os seguintes exames laboratoriais:Hb = 11.5 g/dL; Ht = 38%; VCM = 78; leucócitos = 6000 (N60% L30% M8% E2%); plaquetas: 130.000/mm³; bilirrubina total = 7 mg/dL; bilirrubina direta: 5 mg/dL; TGO = 200 U/L; TGP = 230 U/L; GGT: 650 U/L; fosfatase alcalina = 900 U/L; RNI = 1,8; atividade de protrombina = 45% e albumina: 2 g/dL.No exame físico durante a consulta, estava com peso de 3.700 g, corado, hidratado, ictérico (3+/4+), acianótico, fontanela anterior plana e normotensa. Abdome distendido, com fígado palpável a cerca de 6 cm do rebordo costal direito e baço palpável a 4 cm do rebordo costal esquerdo.Sobre esse quadro clínico, assinale a alternativa correta.

Alternativas

  1. A) Faz parte da propedêutica do quadro a realização de ultrassom abdominal total para exclusão de atresia de vias biliares.
  2. B) Deve-se orientar a mãe quanto ao caráter benigno do quadro, por se tratar de uma icterícia do leite materno.
  3. C) O ganho de peso adequado no primeiro mês exclui doença do fígado e vias biliares.
  4. D) Trata-se de um quadro de obstrução de vias biliares, sendo o tratamento cirúrgico o mais adequado.

Pérola Clínica

Icterícia progressiva >14 dias com colúria e acolia fecal → sempre investigar colestase, sendo atresia de vias biliares uma emergência.

Resumo-Chave

A icterícia que persiste após 14 dias de vida, especialmente com sinais de colestase como colúria e acolia fecal, é um sinal de alerta para doenças hepáticas graves, como a atresia de vias biliares. O ultrassom abdominal é o exame inicial para avaliar as vias biliares e o parênquima hepático.

Contexto Educacional

A icterícia neonatal é um achado comum, mas a persistência e a presença de colestase (elevação da bilirrubina direta) indicam uma condição patológica que exige investigação imediata. A atresia de vias biliares é a causa mais comum de colestase neonatal e, se não tratada precocemente, leva à cirrose biliar e insuficiência hepática. O diagnóstico precoce é crucial para o sucesso da cirurgia de Kasai, que deve ser realizada idealmente antes dos 60 dias de vida para preservar a função hepática. O quadro clínico de icterícia progressiva, colúria e acolia fecal, juntamente com exames laboratoriais que mostram hiperbilirrubinemia direta, elevação de transaminases, GGT e fosfatase alcalina, é altamente sugestivo de colestase. O ultrassom abdominal é o primeiro passo na propedêutica para avaliar a vesícula biliar e as vias biliares, buscando sinais de atresia ou outras anomalias. Outros exames como cintilografia hepatobiliar e biópsia hepática podem ser necessários para confirmação. O manejo da atresia de vias biliares é cirúrgico (procedimento de Kasai), visando restabelecer o fluxo biliar. O prognóstico está diretamente relacionado à idade em que a cirurgia é realizada. É fundamental que residentes e profissionais de saúde estejam atentos aos sinais de colestase neonatal para um diagnóstico e intervenção oportunos, evitando complicações graves e melhorando a qualidade de vida do paciente.

Perguntas Frequentes

Quais são os sinais de alerta para icterícia colestática em um lactente?

Os principais sinais de alerta incluem icterícia que persiste após 14 dias de vida (ou 21 dias em prematuros), associada a colúria (urina escura) e acolia fecal (fezes claras ou esbranquiçadas). Exames laboratoriais mostrarão elevação da bilirrubina direta.

Qual a importância do ultrassom abdominal na investigação da icterícia neonatal?

O ultrassom abdominal é o exame de imagem inicial e crucial para avaliar as vias biliares e o parênquima hepático. Ele pode identificar a ausência ou anormalidade da vesícula biliar, dilatação de vias biliares e outras alterações que sugerem atresia de vias biliares ou outras causas de colestase.

Como diferenciar icterícia do leite materno de atresia de vias biliares?

A icterícia do leite materno é uma hiperbilirrubinemia indireta benigna, sem colúria ou acolia fecal, e com enzimas hepáticas normais. A atresia de vias biliares é uma hiperbilirrubinemia direta (colestática), com colúria, acolia fecal e elevação significativa de enzimas como GGT e fosfatase alcalina, indicando doença hepática grave.

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