USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2024
Um motociclista jovem colidiu com uma árvore a cerca de 80 km/h. Estava de capacete. Era um dia de inverno, chovia e a temperatura ambiente era de 7 °C. No hospital, a via aérea estava pérvia e o murmúrio vesícula era normal bilateralmente. FC: 90 bpm, PA: 115x70 mmHg. Glasgow: 13. Temperatura esofágica: 34 °C. EFAST (Focused Assessment With Sonography for Trauma): positivo em janela espleno renal. Exames laboratoriais: glicemia: 300 mg/dL, plaquetas: 280.000/mm3 (150.000 a 450.000/mm³) e TTPA alargado. A tomografia de abdome mostrou lesão esplênica grau III. Qual o próximo passo recomendado?
Hipotermia < 35°C no trauma → ↑ Risco de arritmias e coagulopatia. Prioridade: Reaquecimento.
Paciente estável com lesão esplênica grau III e hipotermia deve ser manejado conservadoramente para a lesão, mas agressivamente para a temperatura, visando evitar a tríade da morte.
O manejo do trauma moderno foca na prevenção da tríade letal. No caso apresentado, apesar da lesão esplênica e do EFAST positivo, a estabilidade hemodinâmica permite o tratamento conservador da lesão abdominal. No entanto, a temperatura de 34°C e o TTPA alargado indicam que o paciente já está sofrendo os efeitos sistêmicos da hipotermia e da coagulopatia. A prioridade clínica desloca-se para a correção da temperatura e monitorização de complicações elétricas cardíacas. O uso de bypass cardiopulmonar é reservado para casos de hipotermia grave (< 28-30°C) com parada cardíaca ou instabilidade extrema, o que não se aplica aqui. A hiperglicemia observada é uma resposta metabólica comum ao estresse do trauma e à própria hipotermia.
A hipotermia (temperatura < 35°C) é um componente crítico da 'tríade da morte' no trauma, junto com a acidose e a coagulopatia. Ela inibe a cascata de coagulação e a função plaquetária, exacerbando hemorragias. Além disso, a hipotermia grave predispõe a arritmias cardíacas fatais, como a fibrilação ventricular, e altera o metabolismo de drogas e a resposta inflamatória, aumentando a mortalidade global do paciente.
Em pacientes hemodinamicamente estáveis (como o do caso, com PA 115x70 mmHg e FC 90 bpm), o manejo não operatório (MNO) é a conduta de escolha para lesões esplênicas graus I a III, e muitas vezes até IV. Isso inclui observação rigorosa em ambiente de UTI, exames seriados e repouso. A cirurgia (esplenectomia ou colorrafia) é reservada para instabilidade hemodinâmica persistente ou sinais de peritonite.
Para hipotermia leve a moderada (34°C), o reaquecimento deve ser iniciado com métodos externos passivos (cobertores, ambiente aquecido) e ativos (mantas térmicas, ar aquecido forçado). Fluidos intravenosos devem ser aquecidos a 39-40°C. A monitorização cardíaca contínua é essencial devido ao risco de arritmias durante o processo de reaquecimento, especialmente quando o sangue frio periférico retorna ao núcleo central (afterdrop).
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