Hipotermia Terapêutica na Encefalopatia Hipóxico-Isquêmica

PSU-GO - Processo Seletivo Unificado de Goiás — Prova 2025

Enunciado

Uma mulher de 33 anos de idade, com 40 semanas de gestação chegou ao serviço de emergência com queixas de contrações e dor nas costas havia 30 minutos. O seu histórico obstétrico anterior inclui aborto espontâneo e um parto cesáreo devido ao posicionamento pélvico do feto. A atual gestação transcorreu sem intercorrência e os resultados dos exames sorológicos e da pesquisa de estreptococo B foram negativos. Na sala de emergência, a gestante apresentou importante sangramento vaginal e útero de consistência endurecida, sendo submetida à cesariana de emergência que mostrou a presença de grande perda de sangue e descolamento da placenta. O recém-nascido apresentava-se hipotônico e em apneia, sendo realizado clampeamento imediato de cordão e levado à mesa de reanimação e, após ser submetido aos passos iniciais, constatou-se FC < 60 bpm. As etapas iniciais da reanimação neonatal falharam em aumentar a frequência cardíaca e o neonato foi submetido a intubação orotraqueal para ventilação com pressão positiva, compressões do tórax e aplicação de uma dose de epinefrina por meio de um cateter venoso umbilical. Os escores de Apgar foram 1, 2, 4 e 7, respectivamente. Após a estabilização, o bebê foi transferido para a unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN). A gasometria arterial do cordão umbilical mostrou pH de 6.7 PCO₂ de 127 mmHg, PO₂ de 100 mmHg, e déficit de base de -19 mEq/L. Na UTIN, o RN apresenta-se ao exame físico com letargia/estupor palidez e tônus central fraco, ausência de sucção e reflexo de Moro, sendo os demais reflexos, embora presentes, diminuídos. Após instalação de eletroencefalograma de amplitude integrada (aEEG) obsevou-se um traçado de padrão compatível de crise convulsiva. Considerando o caso clínico, sabe-se que:

Alternativas

  1. A) A gasometria de cordão umbilical deste RN, apesar da acidose ser mista, é possível afirmar que o componente metabólico está alterado o suficiente para indicar hipotermia terapêutica.
  2. B) Esse RN tem indicação de ser tratado com hipotermia terapêutica por 48 horas.
  3. C) A droga de escolha para o tratamento da crise convulsiva desse RN é o diazepam.
  4. D) A ressonância magnética de crânio é útil nas primeiras horas após o nascimento deste bebê, pois proporciona informações prognósticas.

Pérola Clínica

Hipotermia se: pH < 7,0 ou Déficit de Base ≥ 16 no cordão + Encefalopatia moderada/grave.

Resumo-Chave

A indicação de hipotermia terapêutica baseia-se em evidências bioquímicas de asfixia (acidose grave) e sinais clínicos de encefalopatia moderada a grave, visando neuroproteção nas primeiras 6 horas de vida.

Contexto Educacional

A Encefalopatia Hipóxico-Isquêmica (EHI) é uma das principais causas de sequelas neurológicas permanentes e óbito neonatal. A hipotermia terapêutica (33,5°C a 34,5°C) é a única intervenção comprovada para reduzir a morte e a deficiência neuropsicomotora em recém-nascidos a termo ou pré-termo tardios. No caso clínico apresentado, o pH de 6.7 e o déficit de base de -19 mEq/L preenchem claramente o critério bioquímico. A presença de letargia, tônus fraco e crises convulsivas (confirmadas pelo aEEG) define a encefalopatia moderada/grave, consolidando a indicação. O uso de diazepam é contraindicado em neonatos devido ao risco de depressão respiratória e meia-vida longa; o fenobarbital permanece como droga de primeira escolha para crises convulsivas neonatais.

Perguntas Frequentes

Quais os critérios bioquímicos para hipotermia terapêutica?

Os critérios bioquímicos (Critério A) incluem: pH de sangue de cordão ou de qualquer amostra de sangue na primeira hora de vida < 7,00 OU déficit de base (base excess) ≥ 16 mmol/L. Se o pH estiver entre 7,01 e 7,15 ou o déficit de base entre 10 e 15,9 mmol/L, critérios adicionais como história de evento agudo perinatal e escore de Apgar ≤ 5 aos 10 minutos ou necessidade de ventilação mecânica prolongada são considerados.

Qual o tempo ideal para iniciar a hipotermia?

A 'janela de oportunidade' para o início da hipotermia terapêutica é de até 6 horas após o nascimento. O início precoce é crucial para interromper a cascata de lesão neuronal secundária (fase de falência energética secundária) que ocorre após o insulto hipóxico inicial. O tratamento deve ser mantido por 72 horas, com reaquecimento lento (0,5°C por hora).

Como é avaliada a gravidade da encefalopatia?

A gravidade é avaliada clinicamente pelo escore de Sarnat ou modificações deste, que analisam nível de consciência, tônus muscular, reflexos tendinosos, mioclonias e funções autonômicas. A encefalopatia moderada (Sarnat II) ou grave (Sarnat III) é necessária para indicar a hipotermia. O aEEG (eletroencefalograma de amplitude integrada) auxilia na detecção de crises subclínicas e na avaliação da atividade elétrica cerebral de base.

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