USP/HCRP - Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP) — Prova 2021
Menino com 4 anos de idade, chega ao pronto socorro acompanhado da mãe que refere que o mesmo acorda queixando-se de dor de cabeça seguida de vômitos, há 20 dias. Há dois dias com piora importante. Ao exame físico: regular estado geral, sonolento, abertura ocular apenas quando solicitado, resposta verbal confusa, localiza dor (escala de coma de Glasgow de 12). Frequência cardíaca 56 bpm, pressão arterial sistêmica 123 x 82 mmHg (braço esquerdo, manguito apropriado para idade, valor acima do percentil 95+12 para idade e estatura). Sem outras alterações ao exame físico. Qual a hipótese diagnóstica mais provável?
Criança com cefaleia, vômitos, sonolência, bradicardia e hipertensão → suspeitar de hipertensão intracraniana (Tríade de Cushing).
A apresentação clínica com cefaleia e vômitos persistentes, associada a sinais de hipertensão intracraniana como bradicardia e hipertensão arterial (Tríade de Cushing), sonolência e alteração do nível de consciência em uma criança, é altamente sugestiva de uma lesão expansiva intracraniana, como um tumor em fossa posterior.
Tumores cerebrais são a segunda causa mais comum de câncer em crianças e a principal causa de morte por câncer nessa faixa etária. Em crianças, os tumores de fossa posterior são os mais frequentes, correspondendo a cerca de 50-60% de todos os tumores cerebrais pediátricos. A localização na fossa posterior, próxima ao tronco cerebral e ao cerebelo, frequentemente leva à obstrução do fluxo liquórico, resultando em hidrocefalia e, consequentemente, hipertensão intracraniana (HIC). A apresentação clínica de um tumor cerebral em crianças pode ser insidiosa e inespecífica, mas a combinação de cefaleia e vômitos, especialmente matinais ou que pioram com o tempo, é um sinal de alerta crucial. No caso apresentado, a sonolência, a alteração do nível de consciência (Glasgow 12) e, mais importante, a presença de bradicardia e hipertensão arterial (pressão acima do percentil 95+12 para idade e estatura) configuram a Tríade de Cushing. Esta tríade é um sinal clássico e grave de hipertensão intracraniana, indicando compressão do tronco cerebral e risco de herniação. Diante desse quadro, a hipótese diagnóstica mais provável é um tumor em fossa posterior. Outras condições como meningoencefalite (geralmente com febre e sinais meníngeos mais agudos), síndrome da criança espancada (com outros sinais de trauma) ou intoxicação exógena (com história de exposição e outros sintomas toxicológicos) são menos prováveis ou não se encaixam tão bem na tríade de sintomas apresentada. A investigação deve prosseguir com neuroimagem urgente (tomografia ou ressonância magnética de crânio).
A Tríade de Cushing é composta por bradicardia, hipertensão arterial e alterações do padrão respiratório. Ela indica um aumento grave da pressão intracraniana, com risco iminente de herniação cerebral.
Tumores em fossa posterior, como meduloblastomas e astrocitomas cerebelares, são os tumores cerebrais mais frequentes em crianças, frequentemente causando hidrocefalia e sintomas de hipertensão intracraniana devido à sua localização próxima ao quarto ventrículo.
Além de cefaleia e vômitos, outros sintomas incluem ataxia, nistagmo, papiledema, alterações visuais, convulsões, déficits motores ou sensoriais progressivos e mudanças comportamentais.
Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.
Responder questão no MedEvo