SMS Curitiba - Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba (PR) — Prova 2025
Paciente de 65 anos, portadora de Hipertensão Arterial Sistêmica e Obesidade, vem ao ambulatório de clínica médica com alteração nos exames de função renal e redução da taxa de filtração glomerular (Ureia: 50mg/dl -VR: 15 a 38 mg/dl; Creatinina: 1,8 mg/dl - VR: 0,5 a 1,2 mg/dl; TFG: 31 ml/min/1,73 m2 - VR: acima de 90 ml/min/1,73 m2). A paciente informa que faz uso frequente de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) em altas doses, em decorrência das dores crônicas em seu joelho direito. Assinale o principal mecanismo fisiopatológico pelo qual os AINEs podem induzir lesão renal:
AINEs → ↓ Prostaglandinas → Vasoconstrição da aferente → ↓ TFG.
Os AINEs inibem a síntese de prostaglandinas (PGE2 e PGI2), que são vasodilatadores essenciais da arteríola aferente, resultando em queda da pressão de perfusão glomerular e redução da TFG.
A fisiopatologia da lesão renal por AINEs é um pilar da nefrologia clínica. O glomérulo mantém sua filtração através de um equilíbrio fino entre a pressão na arteríola aferente e eferente. As prostaglandinas renais são hormônios 'de estresse' que protegem o rim contra a isquemia. Em pacientes com reserva renal reduzida, como a paciente do caso (TFG 31 ml/min), a dependência das prostaglandinas é máxima. A inibição dessas substâncias retira o 'escudo' vasodilatador, permitindo que vasoconstritores sistêmicos dominem a microcirculação renal. Este conhecimento é crucial para evitar a prescrição inadvertida de AINEs em pacientes com Doença Renal Crônica (DRC) estágios 3, 4 e 5.
Em situações de redução do volume circulante efetivo ou estenose de artéria renal, o rim depende de mecanismos compensatórios para manter a Taxa de Filtração Glomerular (TFG). As prostaglandinas (especialmente PGE2 e PGI2) promovem a vasodilatação da arteríola aferente, garantindo que o fluxo sanguíneo chegue ao glomérulo com pressão suficiente. Quando os AINEs inibem a COX-1 e COX-2, essa síntese cai, levando à vasoconstrição da aferente mediada pela angiotensina II e noradrenalina sem oposição, resultando em queda abrupta da TFG.
Os AINEs e os IECAs/BRAs afetam a hemodinâmica glomerular de formas opostas, mas ambos podem reduzir a TFG. Os AINEs causam vasoconstrição da arteríola aferente (entrada), reduzindo o fluxo plasmático renal. Já os IECAs e BRAs promovem a vasodilatação da arteríola eferente (saída), reduzindo a pressão intraglomerular. O uso concomitante dessas drogas (o 'triplo golpe' se somado a diuréticos) é extremamente perigoso para a função renal, especialmente em idosos e desidratados.
Além da insuficiência renal funcional (pré-renal) por alteração hemodinâmica, os AINEs podem causar Nefrite Intersticial Aguda (NIA), frequentemente associada a uma síndrome nefrótica por Doença de Lesões Mínimas. Outras complicações incluem necrose papilar renal, distúrbios hidroeletrolíticos como hipercalemia (por hipoaldosteronismo hiporreninêmico) e retenção de sódio e água, exacerbando quadros de hipertensão e insuficiência cardíaca.
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