Hanseníase Multibacilar: Classificação e Conduta PQT-U

SURCE - Sistema Único de Residência do Ceará — Prova 2023

Enunciado

Em seu turno de demanda espontânea na sua UBS, você atende Cleodécio, de 54 anos, que refere estar fazendo uma consulta de retorno. Ele relata que “o pé esquerdo está morto, o olho esquerdo está muito seco e há manchas na pele” e traz o resultado de um exame de baciloscopia de raspado intradérmico para pesquisa de BAAR que foi solicitado por outro médico. O resultado do exame é negativo. Em seu exame físico, apresenta face infiltrada e madarose. Há oito lesões papulares escuras, endurecidas, não dolorosas e não pruriginosas em tórax, dorso e membros inferiores. Em membro inferior esquerdo, você observa espessamento do nervo fibular comum. O exame dermatoneurológico mostra alteração de sensibilidade em face, região medial do antebraço à direita, região lateral da perna esquerda e dorso de pé esquerdo. A avaliação de funções motoras evidencia garra ulnar à direita e perda da dorsiflexão de pé esquerdo.Para fins de conduta terapêutica, qual classificação funcional da Hanseníase de Cleodécio e por quanto tempo a Poliquimioterapia Única (PQT-U) deve ser adotada?

Alternativas

  1. A) Multibacilar, pois há mais de cinco lesões de pele. O esquema terapêutico deve ser mantido por seis meses, tendo em vista a baciloscopia negativa.
  2. B) Multibacilar, pois há mais de cinco lesões de pele. O esquema terapêutico deve ser mantido por doze meses, tendo em vista a classificação funcional.
  3. C) Paucibacilar, pois a baciloscopia está negativa. O esquema terapêutico deve ser mantido por seis meses, tendo em vista a classificação funcional.
  4. D) O esquema terapêutico deve ser mantido por doze meses, pois o paciente apresenta acometimento neural.

Pérola Clínica

>5 lesões ou >1 tronco nervoso acometido = Hanseníase Multibacilar (MB) → 12 meses de PQT-U.

Resumo-Chave

A classificação da hanseníase para fins de tratamento é operacional e clínica. A presença de mais de 5 lesões ou o comprometimento de múltiplos troncos nervosos define o esquema multibacilar, independentemente da baciloscopia.

Contexto Educacional

A hanseníase é uma doença infectocontagiosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na identificação de áreas da pele com alteração de sensibilidade (térmica, dolorosa ou tátil) e/ou comprometimento de nervos periféricos. A baciloscopia, embora útil, possui baixa sensibilidade, especialmente nas formas iniciais ou tuberculoides, e sua negatividade não exclui a doença nem a necessidade de tratamento multibacilar se os critérios clínicos forem preenchidos. O caso de Cleodécio ilustra a forma virchowiana ou dimorfa da doença, com madarose (perda de cílios/sobrancelhas), face infiltrada e múltiplas lesões. O tratamento correto com PQT-U por 12 meses é vital não apenas para a cura, mas para interromper a progressão das deformidades físicas já presentes (garra ulnar e perda da dorsiflexão).

Perguntas Frequentes

Quais são os critérios para classificar um paciente como Multibacilar (MB)?

A classificação operacional da Organização Mundial da Saúde (OMS), adotada pelo Ministério da Saúde do Brasil, divide a hanseníase em Paucibacilar (PB) e Multibacilar (MB) para definir o esquema terapêutico. Um paciente é classificado como Multibacilar se apresentar qualquer um dos seguintes critérios: 1) Mais de cinco lesões cutâneas; 2) Comprometimento de mais de um tronco nervoso (espessamento ou dor); ou 3) Baciloscopia de raspado intradérmico positiva. No caso clínico apresentado, o paciente possui oito lesões e acometimento de pelo menos dois troncos nervosos (fibular e ulnar), o que o enquadra obrigatoriamente como MB, mesmo com a baciloscopia negativa.

Como funciona o esquema PQT-U para Hanseníase Multibacilar?

A Poliquimioterapia Única (PQT-U) utiliza a combinação de Rifampicina, Dapsona e Clofazimina. Para pacientes classificados como Multibacilares (MB), o tratamento consiste em 12 doses supervisionadas de Rifampicina (600mg), Clofazimina (300mg) e Dapsona (100mg), além de doses diárias autoadministradas de Dapsona (100mg) e Clofazimina (50mg). O tratamento deve ser concluído em até 18 meses, mas o esquema padrão prevê 12 meses de duração. A PQT-U visa simplificar o tratamento e garantir a cura bacteriológica, prevenindo a resistência medicamentosa e reduzindo a transmissão na comunidade.

Qual a importância do exame neurológico na classificação da hanseníase?

O exame neurológico é fundamental porque a hanseníase é uma doença primariamente dermatoneurológica. O comprometimento de troncos nervosos (neurite) pode ocorrer mesmo na ausência de lesões cutâneas exuberantes. A identificação de espessamento neural, dor à palpação dos nervos ou perda de função motora/sensorial (como a garra ulnar ou o pé caído por lesão do fibular) é um critério classificatório independente. Se houver mais de um nervo afetado, o paciente é MB. Além disso, o dano neural é a principal causa de incapacidades físicas e estigma, exigindo monitoramento rigoroso durante e após o tratamento para identificar reações hansênicas.

Responda esta e mais de 150 mil questões comentadas no MedEvo — a plataforma de residência médica com IA.

Responder questão no MedEvo