UFRN/HUOL - Hospital Universitário Onofre Lopes - Natal (RN) — Prova 2022
Paciente masculino, 42 anos, natural e procedente de Natal, morador da Zona Norte, vigilante, casado. Vem à consulta e informa surgimento, há 2 anos, de manchashipocrômicas assintomáticas no abdome que, paulatinamente, atingiram o dorso, os braços e as pernas. Há um ano, refere presença de lesões eritemato-edematosas infiltradas, com bordas internas bem definidas, mas as externas pouco definidas; e agora acometem também a face. Elas têm dimensões distintas, variando de poucos centímetros a lesões muito grandes. Esporadicamente, elas tornam-se mais evidentes, vermelhas, edematosas e “quentes”. Nesses episódios agudos, associam-se a artralgias, febre medida, inapetência e cansaço físico. Na última piora, há um mês, surgiu também uma dor intensa no cotovelo esquerdo, que, ao ser apalpado, evidenciou o nervo ulnar espessado e doloroso. Além disso, notou-se perda da sensibilidade e força nos 4º e 5º dedos da mão esquerda. Nega casos semelhantes na família e nunca residiu em outro estado. Devido ao seu trabalho, por 5 anos, passou temporadas em Mossoró, há mais de 3 anos. Informa que, no último ano, fez uso de vários tratamentos orais e tópicos, entre antifúngicos, anti-inflamatórios não hormonais, analgésicos, corticoides e antihistamínicos, com melhoras parciais, mas sempre há retorno e, agora, houve agravamento do quadro clínico. Nesse caso, o diagnóstico clínico mais provável é
Hanseníase dimorfa + lesões eritemato-edematosas infiltradas + neurite aguda = Reação Tipo 1.
O quadro clínico com lesões cutâneas polimorfas (manchas hipocrômicas e lesões infiltradas), episódios agudos inflamatórios e, principalmente, a neurite com espessamento e dor no nervo ulnar, associada à perda de sensibilidade e força, é altamente sugestivo de hanseníase dimorfa em reação tipo 1 (reversa).
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, que afeta principalmente a pele, nervos periféricos, vias aéreas superiores, olhos e testículos. Sua apresentação clínica é variada, dependendo da resposta imune do hospedeiro, classificando-se em formas paucibacilares (tuberculoide e indeterminada) e multibacilares (virchowiana e dimorfa). A hanseníase dimorfa (borderline) é a forma mais instável, com características clínicas e imunológicas intermediárias, sendo suscetível a episódios inflamatórios agudos conhecidos como reações hansênicas. As reações hansênicas são fenômenos imunológicos que podem ocorrer antes, durante ou após o tratamento politerápico, representando uma das principais causas de incapacidades físicas. A reação tipo 1, ou reação reversa, é uma exacerbação da imunidade celular, manifestando-se com inflamação aguda das lesões cutâneas preexistentes (tornando-as eritematosas, edematosas e dolorosas) e, frequentemente, neurite aguda. A neurite é caracterizada por dor, espessamento e perda de função dos nervos periféricos, como o ulnar, fibular comum e radial, levando a perda de sensibilidade e força muscular. O diagnóstico da hanseníase dimorfa com reação tipo 1 e neurite é clínico, baseado na história do paciente, exame dermatoneurológico e, se necessário, baciloscopia. O tratamento das reações hansênicas é emergencial e visa controlar a inflamação e prevenir danos neurais irreversíveis, utilizando corticosteroides sistêmicos (prednisona) em doses elevadas, além da politerapia específica para a hanseníase. O acompanhamento rigoroso é fundamental para monitorar a resposta ao tratamento e identificar precocemente novas exacerbações.
A hanseníase dimorfa (borderline) apresenta um espectro de manifestações clínicas, com lesões cutâneas que podem variar de manchas hipocrômicas a placas eritemato-infiltradas, com bordas internas bem definidas e externas difusas. É clinicamente instável e pode evoluir para formas paucibacilares ou multibacilares.
A reação tipo 1 é uma hipersensibilidade tardia que ocorre em pacientes com hanseníase dimorfa, caracterizada por uma exacerbação da imunidade celular. Manifesta-se com inflamação aguda das lesões cutâneas preexistentes (tornam-se eritematosas, edematosas, dolorosas) e, crucialmente, neurite aguda, com dor, espessamento e perda de função dos nervos periféricos.
A neurite é uma das manifestações mais graves da hanseníase, podendo levar a incapacidades permanentes. É identificada pela dor e espessamento dos troncos nervosos periféricos (ulnar, fibular, radial), associada a perda de sensibilidade e/ou força muscular na área inervada. Seu reconhecimento precoce é vital para o tratamento e prevenção de sequelas.
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