INEP Revalida - Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos — Prova 2022
Uma escolar com 7 anos de idade é atendida em Unidade de Pronto Atendimento. A mãe relata que, há 1 dia, está com inchaço nos olhos e tem urinado pouco, apresentando urina escura. Relata também que, há 15 dias, a menina queixou-se de dor na garganta, dificuldade para engolir os alimentos e apresentou febre alta por 4 dias, manejada com medicação sintomática. No momento, a escolar apresenta cefaleia. Ao exame físico, verificam-se regular estado geral, edema periorbital discreto e hipertensão estágio 1.Considerando o caso clínico descrito, responda às questões a seguir.a) Qual é a principal hipótese diagnóstica? Justifique sua resposta.b) Quais exames laboratoriais podem estar alterados nesse caso? c) Quais as orientações a serem feitas e que medicamentos devem ser usados para essa escolar? d) Qual é a evolução esperada desse quadro para casos não complicados?
Hematúria (urina escura) + Edema + Hipertensão 1-3 semanas após faringite = GNDA Pós-Estreptocócica.
A GNDA é uma síndrome nefrítica clássica causada por imunocomplexos que se depositam no glomérulo após infecção por estreptococo, levando a queda da filtração e retenção hidrossalina.
A Glomerulonefrite Difusa Aguda (GNDA) pós-estreptocócica é o protótipo da síndrome nefrítica na pediatria. Ocorre após um período de latência (7-21 dias após faringite ou 15-28 dias após piodermite) devido à deposição de imunocomplexos (contendo antígenos como a proteinase piogênica exotoxina B) na membrana basal glomerular. Clinicamente, a redução da taxa de filtração glomerular leva à retenção de sódio e água, manifestando-se como edema (frequentemente matutino/periorbitário), hipertensão arterial e oligúria. A hematúria 'em cor de chá' ou 'coca-cola' é característica. O manejo foca na prevenção de complicações da sobrecarga volêmica, como encefalopatia hipertensiva e edema agudo de pulmão, sendo a internação indicada para monitorização rigorosa em casos de hipertensão estágio 2 ou sinais de congestão.
O diagnóstico é clínico-laboratorial. Os exames essenciais incluem: 1. Urina tipo 1 (mostrando hematúria, frequentemente com cilindros hemáticos, e proteinúria subnefrótica); 2. Dosagem de Complemento (C3 e CH50 estarão baixos em 90% dos casos, normalizando em até 8 semanas); 3. Evidência de infecção estreptocócica prévia (ASLO elevado para faringite ou anti-DNAse B para piodermites); 4. Avaliação da função renal (Ureia e Creatinina podem estar elevadas) e eletrólitos (risco de hipercalemia).
O tratamento é predominantemente de suporte, focado no controle da hipervolemia e da hipertensão. As medidas incluem: restrição hídrica (balanço hídrico rigoroso) e dieta hipossódica. Medicamentos de escolha são os diuréticos de alça (Furosemida) para tratar o edema e a hipertensão. Vasodilatadores como hidralazina ou bloqueadores de canais de cálcio podem ser usados se a hipertensão persistir. A antibioticoterapia (Penicilina) é indicada apenas para erradicar o estreptococo da orofaringe/pele e evitar a disseminação da cepa nefritogênica, mas não altera a evolução da glomerulonefrite.
O prognóstico na infância é excelente, com cura completa em mais de 95% dos casos. A evolução esperada segue uma cronologia: o edema e a hipertensão costumam regredir em 1 a 2 semanas com o início da diurese; o complemento C3 normaliza em até 8 semanas; a hematúria macroscópica desaparece em poucas semanas, mas a hematúria microscópica pode persistir por até 1 a 2 anos, sem que isso signifique mau prognóstico ou necessidade de biópsia.
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