SES-DF - Secretaria de Estado de Saúde do Distrito Federal — Prova 2025
Um escolar de 8 anos de idade foi levado à emergência em razão de um quadro de indisposição, inapetência, cefaleia e edema periorbital. A médica, em sua anamnese, perguntou acerca de quedas, brigas na escola e sintomas associados, como queda de cabelo, febre, vômitos e síncope. A mãe negou quaisquer dos sintomas citados. Na história patológica pregressa, relatou infecção de garganta com frequência. Ao exame, a criança encontrava-se em bom estado geral, eupneica (FR = 20 irpm), eucárdica (FC = 100 bpm), com SatO2 = 98%, edema periorbital bilateralmente, de moderada intensidade, sem hiperemia, indolor, sem sinais de trauma. Verificaram-se pressão arterial acima do percentil 95 para a idade e exame simples de urina com hematúria presente.Em relação aos exames complementares, assinale a alternativa correta.
Hematúria + Edema + HAS + ↓ C3 = Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica.
A GNPE é o protótipo da síndrome nefrítica na infância, ocorrendo após infecção faríngea ou cutânea por estreptococo. O diagnóstico baseia-se na clínica e na demonstração de queda transitória do complemento C3.
A Glomerulonefrite Difusa Aguda Pós-Estreptocócica (GNPE) é uma doença imunomediada que surge após uma infecção por cepas nefritogênicas do Streptococcus pyogenes (Grupo A). O período de latência é clássico: de 1 a 3 semanas após um quadro de faringite e de 2 a 6 semanas após uma piodermite. A fisiopatologia envolve o aprisionamento de antígenos estreptocócicos na membrana basal glomerular, seguido pela formação de imunocomplexos in situ e ativação da cascata do complemento, gerando inflamação glomerular. Clinicamente, manifesta-se como uma síndrome nefrítica clássica: hematúria macroscópica, edema (frequentemente periorbital e matutino), hipertensão arterial e oligúria. Laboratorialmente, a hematúria é de origem glomerular e o complemento C3 está invariavelmente consumido na fase aguda. O diagnóstico é clínico-laboratorial, exigindo evidência de infecção estreptocócica prévia (cultura ou sorologia como ASLO ou Anti-DNAse B) e hipocomplementemia. O prognóstico na infância é excelente, com a maioria dos pacientes recuperando a função renal completamente, embora a hematúria microscópica possa persistir por meses.
Na GNPE, ocorre a ativação da via alternativa do complemento devido à deposição de imunocomplexos na membrana basal glomerular. Isso resulta em uma queda característica dos níveis de C3 e CH50, enquanto os níveis de C4 permanecem normais ou apenas discretamente reduzidos. Essa hipocomplementemia é transitória e fundamental para o diagnóstico, devendo normalizar em até 8 semanas após o início do quadro clínico. Se o C3 permanecer baixo após esse período, o médico deve suspeitar de outras patologias, como Glomerulonefrite Membranoproliferativa, Lúpus Eritematoso Sistêmico ou endocardite infecciosa.
A hematúria glomerular, típica da GNPE, apresenta características específicas no exame de urina: cor de 'chá' ou 'coca-cola', ausência de coágulos, presença de dismorfismo eritrocitário (especialmente acantócitos > 5%) e a presença de cilindros hemáticos. Cilindros hemáticos são patognomônicos de sangramento originado no néfron, pois indicam que as hemácias foram moldadas dentro dos túbulos renais em meio à proteína de Tamm-Horsfall. Já a hematúria não glomerular (vias urinárias baixas) costuma ser vermelho-viva, pode apresentar coágulos e as hemácias mantêm sua morfologia normal.
O tratamento da GNPE é predominantemente de suporte, focado no controle das complicações da sobrecarga volêmica. Isso inclui restrição hídrica rigorosa, dieta hipossódica e o uso de diuréticos de alça (furosemida) para tratar o edema e a hipertensão arterial. Em casos de hipertensão refratária, podem ser usados bloqueadores de canais de cálcio ou hidralazina. A antibioticoterapia (geralmente penicilina benzatina) é indicada para erradicar o estreptococo da orofaringe ou pele e evitar a disseminação da cepa nefritogênica na comunidade, mas não altera a evolução da lesão renal já estabelecida.
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