UNESC - Centro Universitário do Espírito Santo — Prova 2025
Um paciente de 68 anos foi submetido a uma gastrectomia subtotal com reconstrução em Y de Roux devido a adenocarcinoma gástrico. No quinto dia de pós-operatório, ele desenvolve náuseas persistentes, vômitos biliosos e distensão abdominal significativa. A tomografia computadorizada revela dilatação gástrica sem sinais de obstrução mecânica. Qual é a complicação mais provável e qual o manejo recomendado?
Vômitos + Dilatação gástrica sem obstrução mecânica no 5º PO → Gastroparesia.
A gastroparesia pós-operatória é uma disfunção motora comum após cirurgias gástricas extensas; o diagnóstico é de exclusão e o tratamento inicial é conservador.
A gastrectomia subtotal com reconstrução em Y de Roux é um procedimento complexo para o tratamento do câncer gástrico. No pós-operatório imediato, as complicações podem ser mecânicas (fístulas, obstruções) ou funcionais. A gastroparesia enquadra-se nas complicações funcionais e é um desafio clínico pois mimetiza uma obstrução. É fundamental descartar deiscência de anastomose ou isquemia, que apresentariam sinais de irritação peritoneal ou instabilidade hemodinâmica. A síndrome de dumping, citada em alternativas, costuma ocorrer mais tardiamente (após o início da dieta) e apresenta sintomas vasomotores e diarreia, não distensão gástrica importante. O manejo conservador evita reoperações em tecidos friáveis e inflamados, que teriam alto risco de complicações adicionais.
A gastroparesia pós-operatória, também chamada de síndrome da estase gástrica, ocorre devido a uma combinação de fatores: denervação vagal parcial ou total durante a ressecção gástrica, manipulação cirúrgica que gera edema nas anastomoses e alterações nos marcapassos gástricos naturais. Isso resulta em uma falha na motilidade do remanescente gástrico ou da alça eferente, impedindo o esvaziamento adequado do conteúdo alimentar e secreções, levando à distensão e vômitos, mesmo na ausência de um bloqueio físico (obstrução mecânica).
A diferenciação é feita principalmente por exames de imagem, sendo a Tomografia Computadorizada (TC) de abdome com contraste oral e venoso o exame de escolha. Na gastroparesia, observa-se dilatação do estômago ou da alça, mas o contraste progride (ainda que lentamente) e não há um 'ponto de transição' nítido onde o calibre do lúmen muda abruptamente. Já na obstrução mecânica (por bridas, hérnias internas ou estenose de anastomose), a TC mostra uma zona de colapso distal ao ponto de obstrução e, frequentemente, sinais de sofrimento de alça.
O manejo é eminentemente conservador e baseado em suporte. Inclui repouso gástrico (jejum), descompressão gástrica através de sonda nasogástrica para alívio dos sintomas e prevenção de aspiração, correção de distúrbios hidroeletrolíticos e suporte nutricional (frequentemente nutrição parenteral se o quadro se prolongar). O uso de procinéticos, como a metoclopramida ou eritromicina (agonista da motilina), pode ser tentado para estimular a motilidade. A maioria dos casos resolve-se espontaneamente em 1 a 2 semanas com a redução do edema inflamatório.
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