USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2024
Mulher de 48 anos, queixa-se de epigastralgia crônica. Endoscopia digestiva alta mostra sinais atrofia gástrica proximal e múltiplas lesões avermelhadas, de 3 a 6 mm de diâmetro, em corpo gástrico proximal. Biópsia: tumor neuroendócrino gástrico (imuno-histoquímica com cromogranina positiva, Ki-67 = 1%, Gastrina sérica = 1120 pg/mL (aumentada), e vitamina B12 = 180 pg/mL (diminuída). Tomografia de tórax, abdome e pelve negativas para metástases. Qual o provável diagnóstico?
Atrofia de corpo + ↑ Gastrina + ↓ B12 + NETs múltiplos = Gastrite Atrófica Autoimune.
A gastrite autoimune causa destruição das células parietais, levando a hipocloridria, hipergastrinemia reacional e hiperplasia de células ECL, culminando em NETs gástricos tipo 1.
A gastrite crônica atrófica autoimune (GCAA) é uma doença imunomediada caracterizada pela presença de anticorpos contra células parietais e fator intrínseco. A inflamação e atrofia são restritas ao corpo e fundo gástricos, poupando o antro. A perda da massa celular parietal resulta em acloridria, o que remove o feedback negativo sobre as células G antrais, levando a níveis severamente elevados de gastrina sérica. Clinicamente, os pacientes podem apresentar sintomas dispépticos ou manifestações de anemia megaloblástica (anemia perniciosa). O risco aumentado de adenocarcinoma gástrico e, especificamente, de tumores neuroendócrinos (NETs) gástricos tipo 1, exige vigilância endoscópica. Os NETs tipo 1 são geralmente pequenos (< 1cm), múltiplos e possuem baixo índice de proliferação (Ki-67 baixo), apresentando um prognóstico excelente, muitas vezes manejados apenas com ressecção endoscópica e acompanhamento.
A destruição autoimune das células parietais reduz a acidez gástrica, o que estimula as células G a produzirem gastrina em excesso. A hipergastrinemia crônica exerce um efeito trófico sobre as células ECL (enterochromaffin-like), gerando hiperplasia e, eventualmente, tumores neuroendócrinos múltiplos.
O tipo 1 está associado a gastrite atrófica e hipergastrinemia; o tipo 2 ocorre na síndrome de Zollinger-Ellison (gastrinoma); o tipo 3 é esporádico, geralmente lesão única, maior que 2cm e possui níveis de gastrina normais, tendo comportamento biológico muito mais agressivo.
A destruição das células parietais também cessa a produção de fator intrínseco. Sem ele, a vitamina B12 não pode ser absorvida no íleo terminal, resultando em deficiência sérica e, a longo prazo, no desenvolvimento de anemia megaloblástica (anemia perniciosa).
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