AMP - Associação Médica do Paraná — Prova 2025
Mulher, 67 anos, após realizar exames laboratoriais solicitados pela Unidade Básica de Saúde, foi orientada a buscar ambulatório de triagem oncológica, pois em eletroforese de proteínas séricas foi identificado “pico monoclonal”. Pela demora para agendar, acabou buscando ambulatório de Clínica Médica. Afirma ter dores predominando em região lombar, a qual sempre relacionou a atividade laborativa de babá. Nega perda ponderal ou febre, afirma apresentar sudorese noturna ocasional em épocas de muito calor. Nega etilismo e tabagismo, pois seu pai, fumante inveterado, faleceu por neoplasia de pulmão. Refere perda de 3 kg durante os últimos 6-8 meses. Traz exames laboratoriais: - Hb 13,2; - Leucócitos 5.400 (neutrófilos 2.690; linfócitos 1.430); - Plaquetas 136.000; - Creatinina 1,4 mg/dL (VN < 1,5 mg/dL); - Cálcio total 9,4 mg/dL (VN < 11 mg/dL); - Eletroforese de proteínas séricas evidenciando pico monoclonal de 0,73 g/dL; - Albumina sérica 3,9 mg/dL. Considerando as informações acima, assinale a alternativa correta:
MGUS → Mieloma Múltiplo (MM); MM exige lesão de órgão-alvo (CRAB) ou biomarcadores de malignidade.
A Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (MGUS) é uma condição pré-maligna obrigatória que precede o Mieloma Múltiplo, caracterizada por pico monoclonal < 3g/dL e ausência de lesões CRAB.
A evolução das gamopatias monoclonais segue um modelo linear onde o Mieloma Múltiplo (MM) é invariavelmente precedido por um estágio assintomático de MGUS ou Mieloma Smoldering. No caso clínico apresentado, a paciente possui um pico monoclonal baixo (0,73 g/dL) e exames laboratoriais (Hb, Cr, Ca) dentro da normalidade, o que sugere MGUS. A dor lombar, embora comum no MM, neste caso foi atribuída à atividade laborativa, reforçando a necessidade de correlação clínica rigorosa. O diagnóstico diferencial entre MGUS, Mieloma Smoldering e MM depende da quantificação da proteína M, da porcentagem de plasmócitos na medula e da presença de eventos definidores de mieloma (MDE). Além do CRAB, novos biomarcadores (plasmocitose ≥ 60%, relação FLC ≥ 100 ou > 1 lesão focal na RM) agora também definem MM, mesmo na ausência de sintomas clássicos.
A Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (MGUS) é definida pela presença de uma proteína monoclonal (proteína M) no soro em concentração inferior a 3 g/dL, com menos de 10% de plasmócitos clonais na medula óssea e, crucialmente, a ausência de danos em órgãos-alvo que possam ser atribuídos à desordem proliferativa de plasmócitos (ausência de critérios CRAB: hipercalcemia, insuficiência renal, anemia ou lesões ósseas líticas). É considerada uma condição pré-cancerosa, com um risco de progressão para mieloma múltiplo ou neoplasias relacionadas de aproximadamente 1% ao ano. O manejo inicial envolve vigilância ativa e monitoramento laboratorial periódico para detectar precocemente sinais de progressão maligna.
Os critérios CRAB são os marcadores clássicos de lesão de órgão-alvo utilizados para definir o Mieloma Múltiplo sintomático. O acrônimo representa: (C) Cálcio elevado, geralmente definido como cálcio sérico > 11 mg/dL ou > 1 mg/dL acima do limite superior do normal; (R) Renal, insuficiência renal com creatinina sérica > 2 mg/dL ou clearance de creatinina < 40 mL/min; (A) Anemia, com hemoglobina < 10 g/dL ou > 2 g/dL abaixo do limite inferior do normal; e (B) Bone (Osso), presença de uma ou mais lesões osteolíticas detectadas por radiografia, TC ou PET-CT. A presença de pelo menos um desses critérios em um paciente com plasmocitose medular clonal ≥ 10% confirma o diagnóstico de Mieloma Múltiplo.
O risco de progressão da Gamopatia Monoclonal de Significado Indeterminado (MGUS) para Mieloma Múltiplo (MM) é de cerca de 1% por ano. Esse risco é estratificado com base em três fatores principais: o tipo de proteína monoclonal (não-IgG tem maior risco), a concentração da proteína M (≥ 1,5 g/dL aumenta o risco) e a relação de cadeias leves livres séricas (FLC) alterada. Pacientes com os três fatores de risco alterados têm uma probabilidade de progressão em 20 anos de aproximadamente 58%, enquanto aqueles sem nenhum fator de risco têm apenas 5% de chance de progressão no mesmo período. Por isso, o seguimento vitalício é recomendado.
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