HEDA - Hospital Estadual Dirceu Arcoverde (PI) — Prova 2019
Primigesta de 19 anos de idade com 30 semanas de gravidez fez consulta de pré- natal queixando-se de letargia e discreta dispneia. O exame físico geral revelou: PA: 90 X 60 mmHg, presença de edema pré-tibial e nevos hiperpigmentados em região abdominal supra umbilical. O exame obstétrico constatou altura uterina de 30 cm e ausculta fetal com 128 bpm. Os exames laboratoriais mostrados revelam dosagem de plaquetas 125.000/mm³, EAS com proteinúria negativa e glicosúria 2+. Levando em consideração os resultados apresentados pela paciente no exame físico geral e obstétrico, a queixa de dispneia deve ser considerada:
Dispneia leve + Edema + PA limítrofe no 3º trimestre = Modificações Fisiológicas da Gravidez.
O aumento do volume uterino eleva o diafragma, causando dispneia subjetiva; a compressão da veia cava e a queda da resistência vascular periférica explicam o edema e a PA menor.
A gravidez impõe adaptações profundas em quase todos os sistemas orgânicos para suportar o desenvolvimento fetal. No sistema cardiovascular, há um aumento do débito cardíaco (até 50%) e uma queda na resistência vascular periférica, o que frequentemente resulta em níveis pressóricos mais baixos no primeiro e segundo trimestres. No sistema respiratório, a ventilação por minuto aumenta às custas do volume corrente. No sistema renal, o fluxo plasmático renal e a filtração glomerular aumentam, levando à queda da creatinina sérica e ao aparecimento de substâncias na urina que normalmente seriam reabsorvidas. Reconhecer esses limites da normalidade é crucial para evitar intervenções desnecessárias e focar na detecção de patologias reais como a pré-eclâmpsia.
A dispneia na gestação é multifatorial. Fisiologicamente, ocorre um aumento do drive respiratório mediado pela progesterona, que causa uma hiperventilação crônica (alcalose respiratória compensada). Além disso, a partir do segundo trimestre, o crescimento uterino eleva o diafragma em cerca de 4 cm, alterando a mecânica respiratória e reduzindo a capacidade residual funcional. Embora a capacidade vital permaneça inalterada, a percepção subjetiva de falta de ar é comum em até 75% das gestantes saudáveis, sendo considerada fisiológica se não houver sinais de hipóxia ou desconforto respiratório agudo.
Não, o edema de membros inferiores é extremamente comum e geralmente fisiológico no final da gestação. Ele decorre de uma combinação de fatores: retenção de sódio e água mediada por hormônios, diminuição da pressão coloidosmótica do plasma e, principalmente, o aumento da pressão hidrostática nas veias das pernas devido à compressão da veia cava inferior pelo útero gravídico. O edema torna-se preocupante (sugerindo pré-eclâmpsia) quando é súbito, atinge face ou mãos, ou está associado à hipertensão arterial e proteinúria significativa.
A glicosúria pode ocorrer em gestantes normais devido ao aumento fisiológico do Ritmo de Filtração Glomerular (RFG) e à redução concomitante da capacidade de reabsorção tubular de glicose. Na gravidez, o limiar renal para glicose cai significativamente. Portanto, a presença de glicosúria isolada no EAS não é diagnóstica de Diabetes Mellitus Gestacional, embora sirva como um sinal de alerta que justifica a investigação formal através do teste oral de tolerância à glicose (TOTG) entre 24 e 28 semanas.
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