TECM Teórica - Prova Teórica de Clínica Médica — Prova 2022
Idoso de 76 anos de idade, hipertenso, vem para consulta médica de rotina. Nega queixas, relata boa funcionalidade, totalmente independente para atividade básica de vida diária. Nega doença cardiaca prévia e faz seguimento anual com seu clínico. Ao exame físico percebe-se PA 130 × 85 mmHg, SO2 97% em ar ambiente, FC 120 bpm com ritmo cardíaco irregular à ausculta cardíaca. Faz uso de Enalapril 20mg/dia e Clortalidona 25 mg/dia. Sobre o caso clínico descrito, assinale a alternativa INCORRETA:
FA no idoso: CHA2DS2-VASc ≥ 2 → Anticoagulação (DOACs preferenciais). Controle de ritmo se persistência de sintomas.
A escolha entre controle de ritmo ou frequência na FA depende de sintomas e comorbidades; embora a mortalidade seja similar em muitos casos, o controle de ritmo é indicado se houver falha no controle de frequência ou sintomas persistentes.
A Fibrilação Atrial (FA) é a arritmia supraventricular sustentada mais comum na prática clínica, caracterizada pela desorganização da atividade elétrica atrial. Sua prevalência aumenta exponencialmente com a idade, atingindo cerca de 10% da população acima de 80 anos. O manejo clínico fundamenta-se em três pilares: prevenção de tromboembolismo (AVC), controle da frequência ventricular e controle do ritmo cardíaco quando indicado. O uso de escores de risco como CHA2DS2-VASc para embolia e HAS-BLED para sangramento é essencial para a segurança do paciente. No contexto do idoso hipertenso, a detecção de um ritmo irregular deve prontamente levar à confirmação eletrocardiográfica. A anticoagulação é frequentemente necessária, e a escolha entre varfarina e DOACs deve considerar a função renal e o risco de quedas, embora o risco de queda isolado raramente contraindique a anticoagulação. A estratégia de controle de frequência visa manter a FC < 110 bpm em repouso (estratégia leniente), utilizando betabloqueadores ou bloqueadores de canais de cálcio não-diidropiridínicos. O controle de ritmo é reservado para otimização da qualidade de vida e melhora hemodinâmica em casos específicos.
A indicação de anticoagulação baseia-se no escore CHA2DS2-VASc. Para homens, uma pontuação ≥ 2 e, para mulheres, ≥ 3 torna a anticoagulação mandatória devido ao alto risco tromboembólico. Pacientes com escore 1 (homens) ou 2 (mulheres) devem ter a anticoagulação considerada individualmente. Os Anticoagulantes Orais Diretos (DOACs), como apixabana, rivaroxabana e dabigatrana, são preferíveis aos antagonistas da vitamina K (varfarina) na maioria dos pacientes com FA não valvar, devido ao melhor perfil de segurança, especialmente na redução de hemorragia intracraniana, e à conveniência de dose fixa sem necessidade de monitorização do RNI.
Historicamente, grandes estudos como o AFFIRM e o RACE demonstraram que não há diferença significativa na mortalidade global ou em eventos cardiovasculares maiores entre as estratégias de controle de ritmo (manter o ritmo sinusal) e controle de frequência (aceitar a FA e controlar a resposta ventricular). No entanto, o controle de ritmo é preferível em pacientes que permanecem sintomáticos apesar do controle da frequência, pacientes jovens, ou naqueles com insuficiência cardíaca onde a perda da contração atrial agrava a função ventricular. A decisão deve ser compartilhada, considerando que o controle de ritmo muitas vezes exige procedimentos como cardioversão elétrica ou ablação por cateter.
A ablação por cateter, focada principalmente no isolamento das veias pulmonares, é uma terapia eficaz para a manutenção do ritmo sinusal. Ela é indicada como segunda linha para pacientes com FA paroxística ou persistente que permanecem sintomáticos após tentativa de tratamento medicamentoso com antiarrítmicos. Em casos selecionados, como pacientes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção reduzida, a ablação tem demonstrado superioridade na redução de hospitalizações e mortalidade. Também pode ser considerada como primeira linha em pacientes jovens com FA paroxística que desejam evitar o uso crônico de drogas antiarrítmicas, apresentando taxas de sucesso superiores aos medicamentos.
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