UERJ/HUPE - Hospital Universitário Pedro Ernesto (RJ) — Prova 2026
Menino de 10 anos, previamente hígido, é levado à emergência com dor intensa, calor, rubor em joelho e cotovelo, febre e cansaço há cinco dias. Tem história de amigdalite há duas semanas. Ao exame físico, observa-se sopro sistólico em foco mitral, com irradiação para axila e sinais de artrite em joelho direito e punho esquerdo. Em relação à doença apresentada por esse menino, é correto afirmar que:
Febre Reumática: Coreia de Sydenham pode surgir meses após a infecção e ser a única manifestação presente.
A febre reumática é uma reação autoimune pós-estreptocócica. O diagnóstico exige evidência de infecção prévia + critérios de Jones (maiores e menores).
A Febre Reumática (FR) é uma doença inflamatória sistêmica que ocorre após uma faringoamigdalite causada pelo Streptococcus pyogenes (Grupo A). A patogênese envolve o mimetismo molecular, onde anticorpos produzidos contra a bactéria reagem de forma cruzada com tecidos do hospedeiro, como coração, articulações e gânglios da base. A incidência é maior em crianças de 5 a 15 anos, especialmente em países em desenvolvimento com acesso limitado ao tratamento precoce das infecções de garganta. O manejo clínico foca na erradicação do estreptococo (geralmente com Penicilina G Benzatina), controle da inflamação (AINEs para artrite e corticoides para cardite grave) e, crucialmente, na profilaxia secundária para prevenir novos surtos que agravariam as lesões valvares. A vigilância deve ser rigorosa, pois a recorrência da FR aumenta exponencialmente o risco de cardiopatia reumática crônica, uma condição debilitante que frequentemente exige intervenções cirúrgicas valvares no adulto jovem.
A Coreia de Sydenham é um dos critérios maiores de Jones e caracteriza-se por movimentos involuntários, abruptos e descoordenados, fraqueza muscular e instabilidade emocional. Um detalhe clínico fundamental é o seu longo período de latência, podendo surgir até 6 meses após a faringoamigdalite estreptocócica, quando outros sinais inflamatórios já desapareceram. Muitas vezes, ela se apresenta como a única manifestação da doença, dispensando a comprovação laboratorial de infecção estreptocócica recente para o diagnóstico de febre reumática.
Para o diagnóstico do primeiro surto de febre reumática em populações de baixo risco, os critérios maiores são: Cardite (clínica ou subclínica), Artrite (poliartrite migratória), Coreia de Sydenham, Eritema marginado e Nódulos subcutâneos. Em populações de moderado/alto risco, a monoartrite ou poliartralgia também podem ser consideradas critérios maiores. O diagnóstico requer 2 critérios maiores ou 1 maior e 2 menores, sempre acompanhados de evidência de infecção prévia pelo estreptococo do grupo A (exceto na coreia tardia).
A principal complicação e causa de morbimortalidade é a cardite reumática, que se manifesta tipicamente como uma pancardite (acometimento do endocárdio, miocárdio e pericárdio). No entanto, a lesão valvar (endocardite) é a marca registrada, afetando predominantemente a valva mitral (insuficiência na fase aguda e estenose na fase crônica), seguida pela valva aórtica. Diferente da artrite, que é autolimitada e não deixa sequelas, a cardite pode levar à insuficiência cardíaca congestiva e danos valvares permanentes.
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