Febre no Pós-Operatório: Quando Investigar e Quando Tratar

USP/HCRP - Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP) — Prova 2025

Enunciado

Mulher, 56 anos, obesa. No segundo dia de pós-operatório de colecistectomia videolaparoscópica por litíase biliar. Cirurgia eletiva. Refere dor em hipocôndrio direito e febre. Exame físico: paciente com dor, temperatura axilar de 37,6°C. Ausência de taquicardia. Eupneica e anictérica. Ferida operatória em bom aspecto. Abdome discretamente distendido, com ruídos hidroaéreos sem alterações. Sem resistência e sem dor à palpação superficial. Ao revisar os controles, observou-se temperatura axilar oscilando entre 36,7°C e 37,8ºC com três temperaturas aferidas acima de 37°C no período. Antibiótico prescrito em caráter profilático na indução anestésica e suspenso nesta data, no segundo dia de pós-operatório. Qual a conduta mais adequada?

Alternativas

  1. A) Sintomáticos (antipirético e analgésico).
  2. B) Exames laboratoriais para investigar infecção.
  3. C) Iniciar antibioticoterapia.
  4. D) Exame de Imagem para investigar complicação.

Pérola Clínica

Febre baixa (<38°C) nas primeiras 48h de pós-operatório, sem instabilidade hemodinâmica ou sinais locais, geralmente reflete a resposta inflamatória ao trauma e requer apenas sintomáticos.

Resumo-Chave

A febre nas primeiras 48 horas após uma cirurgia é frequentemente causada pela resposta metabólica ao trauma (liberação de citocinas pirogênicas), e não por infecção. Na ausência de sinais de alarme como taquicardia, hipotensão ou alterações no exame físico, a conduta é expectante e sintomática.

Contexto Educacional

A febre é uma ocorrência comum no período pós-operatório, e seu manejo adequado exige a compreensão de suas causas mais prováveis de acordo com o tempo de surgimento. A abordagem clássica utiliza o mnemônico dos '5 Ws' (Wind, Water, Wound, Walking, Wonder drugs), que correlaciona a febre com causas pulmonares, urinárias, de ferida operatória, trombose venosa profunda e reações a medicamentos, respectivamente. Nas primeiras 48 horas após o procedimento cirúrgico, a causa mais comum de febre baixa (geralmente <38.5°C) é a resposta inflamatória sistêmica ao trauma cirúrgico. A lesão tecidual induz a liberação de citocinas, como interleucina-1 (IL-1), IL-6 e fator de necrose tumoral (TNF), que atuam no hipotálamo e elevam a temperatura corporal. Nesse cenário, o paciente tipicamente se apresenta estável, sem outros sinais de infecção. Diante de um quadro de febre baixa no pós-operatório imediato em um paciente hemodinamicamente estável e com exame físico sem alterações significativas, a conduta mais apropriada é o tratamento sintomático com analgésicos e antitérmicos. A investigação laboratorial e de imagem, bem como o início de antibioticoterapia, devem ser reservados para casos com suspeita clínica de infecção, como febre persistente ou alta, leucocitose com desvio, instabilidade hemodinâmica ou achados anormais no exame físico.

Perguntas Frequentes

Quais são os principais sinais de alarme em um paciente com febre no pós-operatório?

Sinais de alarme incluem febre alta (>38.5°C), instabilidade hemodinâmica (taquicardia, hipotensão), taquipneia, hipoxemia, alteração do nível de consciência, dor desproporcional à cirurgia, ou sinais flogísticos importantes na ferida operatória.

Qual a conduta diante de febre baixa nas primeiras 48h após uma cirurgia eletiva?

Em um paciente estável e com exame físico benigno, a conduta é a administração de sintomáticos (analgésicos e antitérmicos) e observação clínica. Medidas como fisioterapia respiratória para prevenir atelectasias também são importantes.

Como diferenciar febre por atelectasia de uma infecção de sítio cirúrgico?

A febre por atelectasia costuma ser baixa, ocorrer nas primeiras 48-72h e pode estar associada a murmúrio vesicular diminuído na ausculta pulmonar. A infecção de sítio cirúrgico geralmente se manifesta após o 3º-5º dia de pós-operatório, com febre mais alta e sinais locais como hiperemia, calor e secreção purulenta na ferida.

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