USP/HCFMUSP - Hospital das Clínicas da FMUSP (SP) — Prova 2024
Mulher de 64 anos, com aumento do número de evacuações, associado a tenesmo é diagnosticada com adenocarcinoma de reto semi-circunferencial, com 4,0 cm de diâmetro, a 6,0 cm da borda anal. Após investigação diagnóstica e estadiamento específico com ressonância magnética (RNM), diagnostica-se doença localmente avançada (RNM T3N1) não metastática (M0) com indicação de quimiorradioterapia neoadjuvante e quimioterapia de consolidação. Reavaliada após o sexto ciclo de consolidação completos sem intercorrências, refere melhora da sintomatologia. Ao exame proctológico completo, apresenta redução do volume tumoral para 2,0 cm de diâmetro, tratando-se de doença neoplásica claramente persistente - confirmada por biópsias. À ressonância de reestadiamento, conclui-se: neoplasia de reto distal RNM yT2yN1 com boa resposta TRG2 a quimiorradioterapia (onde TRG1 é resposta completa e TRG5 é sem resposta). Assinale a conduta recomendada a partir deste momento:
Doença persistente pós-neoadjuvância no reto distal → Excisão Total do Mesorreto (ETM).
Em casos de adenocarcinoma de reto localmente avançado com resposta incompleta à terapia neoadjuvante total, a cirurgia radical com preservação dos planos embriológicos (ETM) é o padrão-ouro.
O tratamento do câncer de reto distal evoluiu para a Terapia Neoadjuvante Total (TNT), que combina quimiorradioterapia e quimioterapia de consolidação antes da cirurgia. O objetivo é o 'downstaging' e, em alguns casos, a resposta clínica completa, permitindo a preservação de órgão. No entanto, se houver evidência de tumor residual (clínico ou por imagem), a cirurgia radical permanece mandatória. A técnica de Excisão Total do Mesorreto (ETM) revolucionou o prognóstico, focando na integridade da fáscia mesorretal. A preservação de nervos autonômicos (plexo hipogástrico) é um objetivo secundário importante para manter a função sexual e urinária, mas a radicalidade oncológica com margens livres prevalece sobre a preservação funcional em casos de doença persistente.
A ETM consiste na remoção completa do reto envolto por sua gordura mesorretal, respeitando a fáscia própria do reto como plano de clivagem. Este procedimento é essencial para garantir margens circunferenciais livres e remover linfonodos regionais, reduzindo drasticamente as taxas de recidiva local no câncer de reto médio e distal. A técnica deve preservar os nervos autonômicos pélvicos sempre que possível.
A ressecção local é geralmente reservada para tumores T1N0 bem diferenciados, menores que 3 cm, ou em protocolos de 'Watch and Wait' apenas se houver resposta clínica completa (cCR). No caso de doença persistente yT2N1 após neoadjuvância, a ressecção local é oncologicamente insuficiente devido ao alto risco de comprometimento linfonodal residual que a técnica local não aborda.
O TRG avalia a proporção de fibrose em relação ao tumor residual após a neoadjuvância. O TRG1 representa resposta completa (apenas fibrose), enquanto o TRG5 indica ausência de resposta. No caso clínico, o TRG2 indica boa resposta, mas a persistência de doença yT2N1 (linfonodo positivo) exige a complementação terapêutica com cirurgia radical para controle oncológico adequado.
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