CBO Teórica 2 - Prova de Especialidades da Oftalmologia — Prova 2023
Durante a cirurgia de evisceração, o conteúdo uveal deve ser cuidadosamente removido. Qual o objetivo desse passo cirúrgico?
Remoção total do conteúdo uveal na evisceração → evita autoimunidade (oftalmia simpática).
A permanência de restos uveais pode expor antígenos oculares ao sistema imune, desencadeando uma resposta inflamatória granulomatosa grave no olho contralateral.
A cirurgia de evisceração é indicada em casos de olhos cegos e dolorosos, endoftalmites refratárias ou traumas graves sem possibilidade de reconstrução. O principal debate histórico entre evisceração e enucleação reside no risco de oftalmia simpática. Embora a enucleação teoricamente elimine o risco por remover todo o tecido, estudos modernos mostram que uma evisceração bem executada, com limpeza rigorosa, apresenta riscos comparáveis e baixíssimos. A fisiopatologia da autoimunidade ocular pós-procedimento é centrada na exposição de antígenos sequestrados. A barreira hemato-ocular protege o trato uveal do reconhecimento imune; uma vez rompida pela cirurgia, a persistência de tecido pigmentado atua como um foco antigênico contínuo. Portanto, a técnica meticulosa de curetagem e o uso de álcool não são apenas passos procedimentais, mas medidas preventivas fundamentais contra a cegueira bilateral imunomediada.
A oftalmia simpática é uma uveíte granulomatosa bilateral rara, mas devastadora, que ocorre após um trauma penetrante ou cirurgia intraocular em um dos olhos (o olho 'excitador'). O mecanismo fisiopatológico envolve a liberação de antígenos uveais, anteriormente isolados pelo privilégio imune do olho, para a circulação sistêmica e linfática. Isso gera uma resposta de hipersensibilidade mediada por células T contra os melanócitos uveais em ambos os olhos. Na evisceração, se o conteúdo uveal não for totalmente removido, o risco de sensibilização permanece, podendo levar à perda visual no olho remanescente (o olho 'simpatizado').
A enucleação consiste na remoção completa do globo ocular, incluindo a esclera, após a secção dos músculos extraoculares e do nervo óptico. Já a evisceração remove apenas o conteúdo interno do olho (íris, corpo ciliar, coroide, retina e vítreo), preservando a esclera e as inserções musculares. A evisceração geralmente oferece melhor resultado estético e motilidade da prótese, mas exige uma curetagem exaustiva da face interna da esclera para garantir que nenhum fragmento de tecido uveal permaneça, minimizando o risco de inflamação crônica e autoimunidade.
Durante o ato operatório da evisceração, após a remoção do conteúdo macroscópico, o cirurgião deve utilizar uma cureta para raspar toda a superfície interna da esclera. É comum o uso de agentes químicos adjuvantes, como o álcool absoluto ou solução de Carnoy, aplicados com um swab de algodão na cavidade escleral por alguns minutos. Esse passo químico ajuda a desnaturar e destruir quaisquer células pigmentadas remanescentes que possam estar aderidas ou infiltradas nos canais emissários da esclera, garantindo uma cavidade limpa e reduzindo drasticamente o risco de complicações imunológicas.
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