UFES/HUCAM - Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes - Vitória (ES) — Prova 2018
Médico de família realiza visita domiciliar a paciente que vem sendo acompanhado com mais proximidade devido diagnóstico de neoplasia de pulmão metastático e problemas no enfrentamento da doença, com grande repercussão na dinâmica familiar. Os familiares presentes no domicílio relatam que o paciente está mais calmo em relação a períodos anteriores, as vezes até um pouco "aéreo". A filha está preocupada com o fato do paciente estar "dormindo demais" em sua opinião. Nos últimos dias, segundo os relatos, o paciente tem procurado algumas pessoas com quem não tinha mais relações próximas, incluindo um filho, para "pedir perdão pelas coisas que fez". Considerando os trabalhos de Elizabeth Kiibler-Ross sobre o processo de luto e enfrentamento da morte e do morrer, pode-se dizer que este paciente encontra-se no estágio de:
Aceitação = Desprendimento + paz + reconciliação interpessoal (não é necessariamente felicidade).
O estágio de aceitação é a fase final do enfrentamento da terminalidade, caracterizada por um estado de quietude emocional e resolução de conflitos relacionais.
O modelo de Kübler-Ross é um pilar fundamental na tanatologia e nos cuidados paliativos, descrevendo a trajetória emocional de pacientes enfrentando doenças terminais. O estágio de aceitação é frequentemente o objetivo final do suporte psicológico, permitindo uma morte com dignidade e menor sofrimento psíquico. Na prática da Medicina de Família e Comunidade, identificar esses sinais é crucial para orientar a família. Muitas vezes, os familiares interpretam a quietude ou o comportamento 'aéreo' como uma piora do estado mental ou depressão, quando, na verdade, representa o desprendimento necessário para o fim da vida. A busca por reconciliação e o pedido de perdão são marcos clássicos dessa fase de fechamento de ciclo.
Os cinco estágios descritos por Elizabeth Kübler-Ross são: Negação, Raiva, Barganha (ou Negociação), Depressão e Aceitação. É fundamental compreender que esses estágios não são necessariamente lineares; o paciente pode oscilar entre eles, retornar a fases anteriores ou pular etapas dependendo de seu suporte emocional e progressão da doença. A negação funciona como um amortecedor inicial, a raiva surge com a percepção da injustiça, a barganha tenta adiar o fim, a depressão reflete a perda iminente e a aceitação traz a paz final.
No estágio de depressão, o paciente vivencia uma tristeza profunda, luto preparatório e muitas vezes isolamento social ativo acompanhado de choro. Já na aceitação, o paciente atinge um estado de tranquilidade e desprendimento. Não é um momento de alegria, mas de quietude. O paciente começa a se despedir e a focar em resolver pendências práticas e emocionais, como pedir perdão ou buscar reconciliações, demonstrando uma compreensão serena e 'aérea' da própria finitude.
Durante a aceitação, o papel do médico e da equipe multidisciplinar é oferecer suporte para que o paciente mantenha sua dignidade e conforto. É o momento de facilitar comunicações familiares, respeitar o silêncio do paciente e garantir que o controle de sintomas, especialmente dor e dispneia, seja impecável. O médico deve atuar como um facilitador do processo de despedida, validando os sentimentos do paciente e apoiando a família no entendimento de que o 'afastamento' emocional é parte do processo natural de morrer.
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