Escore de Framingham e Risco Cardiovascular na APS

UFPA/HUJBB - Hospital Universitário João de Barros Barreto - Belém (PA) — Prova 2019

Enunciado

A seguir, você vai ler o histórico clínico do Sr. Manuel pelo RMOP/SOAP (Registro Médico Orientado por Problemas) atendido por um MFC na USF Parque Amazônia I. Você vai ler o SOAP, em que o “S” significa Subjetivo (queixa + história clínica de evolução), o “O”, Objetivo (exame físico + exames complementares), o “A”, Avaliação (Lista de problemas) e o “P”, Plano (conduta diagnóstica/ terapêutica/ de seguimento/ de educação em saúde). O RMOP/SOAP foi incorporado ao e-SUS como registro médico oficial do SUS. Leia e analise o SOAP do Sr. Manuel e responda a questão a seguir. S: - Demanda por exames de retorno. - Sr. Manuel, 56 anos, negro, estivador, vem a consulta de retorno trazendo consigo os exames solicitados na consulta anterior. Fuma 20 cigarros por dia há 30 anos, não pratica atividade física regularmente e não faz uso de medicações. O pai é falecido de IAM. A mãe viva e hipertensa. - Dificilmente procura o serviço de saúde. Só veio porque a esposa insistiu e o trouxe junto. Referiu que quando trabalha sente dor precordial, tonturas, turvação da vista e forte dor de cabeça chegando a parar de trabalhar pra depois recomeçar. Afirma que este episódio já aconteceu 2 vezes na última semana, e por isso ficou preocupado. Afirma que nos demais dias não sentia nada e por isso não deu importância. Mas agora sente medo de sofrer “infarto ou derrame ”, como seu pai. - Refere que nas últimas semanas está sofrendo bastante pressão no trabalho por parte do seu encarregado, pois a mercadoria tem que ser descarregada rapidamente, reclamando que ele e os colegas fazem “corpo mole”. Fica suando frio, e às vezes respira fundo antes de partir para o trabalho. Afirma que dá vontade “de jogar tudo pro alto” e até de agredir o seu chefe devido às humilhações que sofre, mas fica “se segurando ”, e isto o atormenta, inclusive está com frequente insônia. O: - Bom estado geral, descorado (1+/4+), hidratado, rosto cansado, obeso, presença de dispneia suspirosa, sudorese intensa, olheiras evidentes, acianótico, anictérico, afebril, dispneico.- Peso: 90 kg; altura: 1,62 m; IMC 34,3 kg/m². Frequência cardíaca: 115 bpm; pressão arterial: 150 x 100 mmHg. - Frequência respiratória: 26 irpm; saturação de 0₂: 97% em ar ambiente. - Exames cardíacos e pulmonar: sem alterações. - Estado psíquico: demonstra-se bastante ansioso e inquieto, verborreico, com dispneia suspirosa, sudorese intensa. - Laboratório: glicemia de jejum: 260 mg/dl; creatinina: 1,1 mg/dL; sódio sérico: 143 mEq/L; Potássio sérico: 4,2 mEq/L. A: - Demanda por exame de retorno. - Medo/preocupação com a doença. - Sintomas ansiosos. - Medida de PA elevada. - Obesidade grau 2. -Tabagismo. - Sedentarismo. - Medida de Glicemia alterada. P: - Converso sobre o medo de doença e sobre a importância de trabalhar os fatores de risco: tabagismo, Obesidade e sedentarismo (dieta e atividade física - mudança de estilo de vida). - Escuta ativa e Abordagem de apoio. - Introduzo anti-hipertensivo: Diurético tiazídico +IECA. MRPA. - Solicito exames: eletrocardiograma, perfil lipídico, nova glicemia de jejum e hemoglobina glicada. - Oriento retornar após resultados de exames e para avaliar introdução de psicoterapia e terapia medicamentosa. Com base no SOAP do Sr. Manuel, é correto afirmar:

Alternativas

  1. A) A hipertensão arterial sistêmica é uma das maiores causas de consulta em serviços de atenção primária à saúde (APS). O caso do Sr. Manuel requer cuidados, pois a HAS é uma doença silenciosa com comprometimento renal. Por isso faltou o MFC solicitar ureia para o paciente.
  2. B) A mudança no estilo de vida é de máxima importância na prevenção e no tratamento da HAS. No caso do Sr. Manuel, ele não apresenta fatores de risco modificáveis, sendo necessário intervir com terapêutica medicamentosa.
  3. C) A avaliação do risco cardiovascular é uma ferramenta importante na definição de metas e na instituição do tratamento. Neste caso, se aplicaria para o Sr. Manuel o “Escore de Framingham ”.
  4. D) No caso do Sr. Manuel, é evidente hipertensão secundária, pois a obesidade central é um forte indício, além do início da hipertensão antes dos 30 anos.
  5. E) O MFC deverá referenciar o Sr. Manuel ao cardiologista, pois o manejo da HAS deverá iniciar nos centros de referências especializadas e só depois da prescrição dos anti- hipertensivos o paciente retorna para ser acompanhado e monitorado pelo MFC, mediante contrarreferência do cardiologista.

Pérola Clínica

Paciente hipertenso + múltiplos fatores de risco → Calcular Escore de Framingham.

Resumo-Chave

A estratificação do risco cardiovascular global pelo Escore de Framingham é essencial para guiar a intensidade do tratamento da hipertensão e definir metas terapêuticas.

Contexto Educacional

O Registro Médico Orientado por Problemas (RMOP) via método SOAP facilita a organização do raciocínio clínico na Atenção Primária. No caso apresentado, o paciente possui múltiplos fatores de risco: tabagismo, obesidade, sedentarismo, idade e provável diabetes (glicemia de 260 mg/dL). A abordagem deve ser multifatorial. A estratificação pelo Escore de Framingham permite ao médico e ao paciente visualizar o risco real de eventos fatais, aumentando a adesão ao tratamento. Além disso, o manejo da HAS na APS foca não apenas em números pressóricos, mas na redução da morbimortalidade cardiovascular global através de intervenções farmacológicas e não farmacológicas coordenadas.

Perguntas Frequentes

O que é o Escore de Framingham?

O Escore de Framingham é uma ferramenta de estratificação de risco que estima a probabilidade de um indivíduo sofrer um evento cardiovascular maior (como infarto ou AVC) nos próximos 10 anos. Ele utiliza variáveis como idade, sexo, níveis de colesterol (total e HDL), pressão arterial, presença de diabetes e tabagismo. É fundamental para decidir o início de terapias farmacológicas, como estatinas, em pacientes de risco moderado a alto.

Quando suspeitar de hipertensão secundária?

Deve-se suspeitar de hipertensão secundária em casos de início súbito antes dos 30 anos ou após os 55 anos, hipertensão resistente (não controlada com 3 drogas), hipocalemia espontânea, sopros abdominais ou quando há sinais clínicos de doenças endócrinas. No caso do Sr. Manuel, a idade e os hábitos de vida sugerem fortemente hipertensão primária (essencial).

Qual o papel do MFC no manejo da HAS?

O Médico de Família e Comunidade (MFC) é o protagonista no manejo da Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), sendo responsável pelo diagnóstico, estratificação de risco, prescrição medicamentosa e promoção de mudanças no estilo de vida. O encaminhamento ao cardiologista é reservado para casos de hipertensão resistente ou suspeita de causas secundárias complexas.

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